27.9.16

200 MILILITROS



Estava me incomodando demais voltar a escrever aqui embora, a princípio, tenha sido justamente o contrário. Não consegui primeiro criar uma nova plataforma, isso me travava. Ao me fazer sentir em casa, confortável e segura, abri aqui uma janela e postei. E postei de novo e de novo.

Mas ao longo das postagens senti, novamente, vontade de criar outro espaço. Não que nunca tivesse feito isso: tenho 5 blogs (abertos mas fechados) pouco ou nada usados no Wordpress (desde Londres). Hoje, entrei lá de novo pra criar mais um, mas não rolou. Acho que preciso, ainda, de algo familiar.

Talvez, também, a escolha do nome — 200mililitros —  venha desse quentinho conhecido. Pensei em outros bem legais e até mais a ver mas, de novo, travava.

"E se eu não posso dançar esta não é minha revolução" (essa frase tão boa atribuída a Emma Goldman).

Fecho, neste espaço, mais um ciclo. E dificilmente voltarei a escrever no 100militros. Eu agora eu aumentei de volume. E os volumes.

[solta o som]

O FEMINISMO E A EQUIDADE INTERNA


A verdade absoluta de cada uma 



No fim de semana, um cara escreveu, no Trendr, "Como foi transar com uma vítima de estupro", texto que teve adicionado um aviso de gatilho e mudou o título para Como foi "me relacionar" com uma vítima de estupro" depois de uma enxurrada de críticas positivas e negativas (estas últimas, típicas de rede social, bem agressivas).

Li no sábado (compartilhado no FB por um amigo). No domingo de manhã, vi que uma menina tinha publicado (elogiando) em um grupo feminista do qual faço parte, também no FB, e já tinha ali uma thread. Umas falando bem, outras mal. Dentre as várias críticas, duas foram, justamente, pro título e pra falta de aviso de gatilho. Será que não dá pra partir do princípio de que o cara não conhece ou não se deu conta disso e avisá-lo e avisá-lo? Pois bem, no update que ele fez, ele disse que foi uma amiga que o alertou para os erros.

Segui lendo. E me surpreendeu duas vítimas de estupro se pronunciarem (a favor).  Pra mim, pelo que aprendi com o feminismo negro, elas devem ser ouvidas, acima de quaisquer outras que nunca passaram por esse horror. Elas não apenas diziam ter gostado, elas argumentavam, explicavam suas vivências. Havia o que aprender com elas — sempre pensei no quanto deveria ser difícil retomar a vida sexual depois de um estupro mas nunca imaginei o que uma delas colocou: eu não quero deixar de ser vista como um ser sexual desejante e tratada com "cuidado". Isso reforçou minha postura de "estou aqui para ouvir, aprender"(embora ela não tenha falado como representante única de todas as mulheres que foram estupradas, e deixou isso claro).

Mas algumas meninas, que nunca passaram por isso, passaram, sim, por cima da fala dela. Para criticar a postura do cara: roubo de protagonismo, título caça clique, romantização do estupro, exposição da menina (mesmo ele não tendo o colocado o nome dela) e várias outras coisas que incluíam apontamento de frases do texto.

Não concordei. E pensei em escrever ali, afinal é um lugar para isso, mas fiquei com medo das reações.

Entre sábado e ontem rolou de tudo nas redes: textos de outras meninas que foram estupradas, também contra e a favor, como A primeira vez de uma vítima de abuso, na Folha, da Nana Queiroz, da revista Az Mina. Ela é ativista do feminismo e que a escrita do cara foi positiva (mesmo que com ressalvas).

O resultado foi muita violência dentro do próprio feminismo por causa do texto.

Hoje, a Joanna Burigo escreveu, na Carta Capital, sobre isso — Feminismo online em chamas. Antes, rolaram dois textos, um da Carol Patrocinio, Ter alguém legal ao lado muda tudo, inclusive voltar a transar depois de um estupro, e outro da Stefanie Cirne, Está solitário ser feminista, que também foram atacadas ao verem valor no que o cara escreveu (mesmo que com ressalvas).

Eu gostei do texto do cara (ressalvas incluídas). Neste momento, muitos homens ainda param pra ler e pensar apenas se for outro homem falando (infelizmente) e desconstrução se faz com reflexão (e vontade) a partir da informação. Também não consigo entender como o feminismo pode prescindir do homem se, afinal, a ideia não é eliminá-lo mas ao patriarcado; a ideia é que eles aceitem a equidade já que nós, feministas, lutamos por isso em relação a eles.

Tudo o que a Joanna aponta na análise dela é importante, relevante. E me senti mais do que representada por feministas que, como ela diz, têm medo de se colocar pela forma agressiva da contra-argumentação (que está mais para ataque). Foi bom porque "desendividualizei"meu sentimento, vi que faço parte de um grupo inserido em um momento; não é só "meu eu" que importa (ou dói) aqui.

Por tudo isso sinto, agora ainda mais forte, a falta da psicanálise no movimento feminista. Falta de contextualizar não só a mulher mas o ser humano como entendimento das falas e posturas de um em relação ao outro; o que machuca, incomoda. Da alteridade, da essência do humano, do que pode ou não oprimir e contribuir para a mudança. A psicanálise como também ferramenta de todo movimento, não como exclusão dos contextos social e cultural nem da história. Não para simplificar, mas pra ampliar o debate.

Eu escrevo este texto, como tenho feito, para guardar links e acontecimentos. E, aqui, me sinto mais protegida porque sei que ninguém vai ler. Não deixo de escrever porque a vontade de falar tem acontecido além de mim — eu preciso me colocar, mesmo que pra mim mesma.



(RE) ANALISANDO FREUD

 
Sigmund Freud Et Carl Jung, 1907



Élisabeth Roudinesco é uma psicanalista francesa que deixou a clínica pra se dedicar ao estudo da psicanálise. Tem vários livros publicados, dentre eles, "Sigmund Freud em sua época e em nosso tempo", que é uma biografia acurada e desmistificadora de Freud. Como acabou de sair no Brasil, e porque ela veio pra cá por conta do ciclo de palestras Fronteiras do Conhecimento, saíram algumas matérias e fiquei conhecendo um pouco sobre ela.

Li algumas delas e, de três entrevistas, quero guardar aqui alguns trechos (uns especificamente relacionados ao feminismo) e os links, porque a íntegra também é valiosa.

Da Época (2016):

Ainda hoje há quem diga que Freud é misógino por conta de sua teoria da sexualidade feminina. Como o tempo de Freud influenciou a maneira como ele pensava a sexualidade feminina e as questões de gênero?
Freud é produto de seu tempo e iniciou uma revolução simbólica. Não podemos mais dizer que ele era misógino, mas sua teoria da sexualidade feminina é discutível, evidentemente. E foi contestada dentro do próprio movimento psicanalítico enquanto Freud ainda estava vivo – falo longamente sobre isso em meu livro. Todas as teorias de gênero são resultado das questões freudianas.

Da Folha (2016):

Há quem diga que Freud é misógino. O que você acha?
Acho que tudo o que se diz a respeito disso é anacronismo ou inexatidão. Devemos nos livrar desse anacronismo e nos perguntar: na sua época, Freud era ou não misógino? A resposta é não.

Mas o que, na obra dele, fez pensar em misoginia?
Sua teoria da sexualidade feminina. Disseram que ela era misógina. Anacronismo. Freud considera que a mulher tem uma reivindicação fálica e que o clitóris é seu órgão erétil. Trata-se de uma teoria completamente falsa. O pressuposto da teoria de Freud sobre a sexualidade feminina é que não existe natureza feminina. Os kleinianos [seguidores da psicanalista Melanie Klein], as psicanalistas mulheres se opõem a essa teoria, dizendo que existem dois sexos e que o clitóris não é um pequeno pênis. Mas Freud não se enganou sobre tudo.

Como assim?
O modelo de Freud é paternocentrista, mas ele tem uma concepção da ciência segundo a qual é a experiência que decide. Penso que é a mesma coisa com a homossexualidade. Ele não podia imaginar que os homossexuais saíssem do registro da perversão, mas Freud era a favor da despenalização, o que é importante na época. Como se pode pensar que Freud imaginaria o casamento de homossexuais e a educação de crianças por eles? A única coisa que podemos dizer é que, quando a filha de Freud quis viver com uma mulher e educar crianças, ele não se opôs. Disse que seria uma família a mais.


Do El País (2015):

— Como ocorre frequentemente com os personagens polêmicos, Freud acabou se tornando uma caricatura de si mesmo, envolto em numerosos rumores e mentiras. Achei que tinha chegado a hora de voltar a um equilíbrio.

— [Freud] Tampouco foi um homem misógino, embora às vezes paternalista, sim.

— Freud foi contrário ao comprometimento político e apostou numa espécie de neutralidade. Para ele, a psicanálise já era compromisso suficiente. Eu estou em total desacordo com essa parte. Se a psicanálise parte do estudo dos vínculos familiares, como pode o psicanalista ficar à margem do debate sobre o casamento homossexual ou a gestação sub-rogada, para citar dois exemplos? Eu há muito tempo sou favorável a ambos, mas muitos colegas meus se expressam em sentido oposto ao meu. Não sei se você sabe que 70% dos psicanalistas franceses eram contra o casamento homossexual…

Acredito que, ao limitar o papel do psicanalista ao de mero observador, Freud terminou originando uma classe profissional reacionária. Não podemos nos deter em modelos varridos pela corrente da história, nem projetar no presente modelos de um passado remoto.

Esse foi o grande trabalho de Freud: nos transformou em heróis de nossas vidas. Pense que, um século atrás, davam poções a um doente, enfiavam-no em um sanatório e o tratavam como louco. Freud, por sua vez, lhes dizia: “Você é Édipo”. Os psicanalistas já não dizem isso, mas algo parecido: “Cuide de si mesmo. Não deixe que o tratem como um sujeito que consome medicamentos passivamente”. Essa teoria do sujeito não existe no behaviorismo [a outra principal escola de psicologia, oposta à psicanálise, que estuda o comportamento e a conduta objetiva, sem acreditar na existência de um subconsciente], que é uma técnica bastante estúpida, embora às vezes funcione. Na minha opinião, cada um deve cuidar da sua história pessoal. Quem não é capaz de verbalizá-la, por um mínimo que seja, está condenado à estupidez.

Apesar dos seus efeitos na percepção da interioridade, muitos autores, como o filósofo Michel Onfray e o historiador Mikkel Borch-Jacobsen, continuam definindo a psicanálise como uma fraude. Por que é tão difícil aceitar sua existência?
É uma teoria muito contundente, que não é fácil de digerir. Na primeira metade do século passado, ela era condenada em nome da moral. Hoje, o motivo apela ao que alguns chamam de ciência. Atualmente, a psiquiatria está desaparecendo, e os neurologistas se transformaram em simples distribuidores de remédios. Isso ocorre porque tratar um paciente com um remédio padronizado é menos custoso do que oferecer um tratamento personalizado e que permita sua evolução. Nesse contexto, é normal que a psicanálise e sua maneira de entender as doenças da alma incomodem. O problema é que as pessoas já estão fartas de tomar remédios. Se suprimirmos uma doutrina racional como a psicanálise como possível solução, essa gente que já não aguenta mais medicamentos terminará recorrendo aos feiticeiros dos remédios paralelos…

A psicanálise precisa mudar para sobreviver?
Sim. Deve aspirar a ocupar o lugar que os behavioristas conquistaram. Para isso, terá que se transformar. As pessoas já não querem deitar em um divã três vezes por semana durante os próximos 20 anos. A psicanálise deve evoluir no ritmo imposto pelo mundo. Deverá passar a apostar em tratamentos mais curtos, durante os quais se interaja com o paciente cara a cara, e não no divã. Deverá aceitar também tratar qualquer pessoa, assim como um médico em um hospital. As novas gerações já estão praticando uma mudança. O problema é que fazem apenas estudos de psicologia e não de ciências humanas, motivo pelo qual os psicanalistas jovens estão menos bem formados e são menos cultos. Para ser psicanalista não é preciso apenas ser inteligente, mas também culto.



[Élisabeth Roudinesco me deixando absolutamente confusa em relação à (não?) importância do divã]

26.9.16

FOOD FOR THOUGHT

Angélica Liddell - You are my Destiny (Lo Stupro di Lucrezia), 2014.
 Parte de Ciclo de las Ressurecciones


Levantei do divã dando risada. A sessão começou às 15h e eu estava elétrica de ter acordado às 8h com gás total pra fazer as várias conexões que eu tinha em mente. E fiz. Graças a deus não precisei escrever matéria (gosto cada vez menos, menos, menos). É outra coisa que quero fazer e estou atrás.

Portanto, às 15h, eu já tinha feito várias coisas intelectuais (no sentido de usar o intelecto), lido textos, ido à yoga, almoçado, falado por uns 40 minutos com uma amiga no telefone e lido mais enquanto esperava a sessão começar. O objetivo da yoga é conexão interna e acalmar a mente mas, hoje, não rolou e nem sempre rola mesmo, é natural.

Então falei sem parar. As pausas que dei, e nas quais ouvi do analista um "sim", foram mais porque eu estava sem graça de emendar um assunto no outro. Eu sei que tô na análise e não importa meu comportamento, inclusive faz parte, mas fiquei com vergonha, é normal.

E ainda tô a milhão, mesmo tendo voltado de outra aula de yoga agora.

Porque hoje, eu tive food for thought conversando com dois caras que não conheço pessoalmente. Um mora em Londres e publicou um texto no Nexo que tem tudo a ver com um assunto que eu estou estudando (cultura do algoritmo). Quando li, ontem, fiquei eletrizada e hoje de manhã escrevi pra ele. Fiquei feliz porque ele disse que tinha lido minha matéria no Draft sobre isso, e gostado; trocamos umas infos, ele me passou uns links (ele estuda na LSE). O outro é um artista contemporâneo que trabalha na Red Bull fazendo aquelas coisas incríveis que rolam no Red Bull Basement sobre inclusão cultural, difusão e visibilidade da cultura marginal. Nem falamos disso mas, sim, de feminismo e, claro, enfiei a psicanálise. Ele também me passou referências.

Curioso isso de conversar com pessoas que só conheço virtualmente mas não é a primeira vez: justamente por meio deste blog fiz algumas amigas muito bacanas (na França e na Alemanha) com quem troquei bastante ideia enquanto estava em Londres e depois. Com duas delas ainda falo (com a terceira, não mais e isso aconteceu depois que nos conhecemos. Não sei bem por que mas, natural, acontece).

Ainda marquei um encontro com uma amiga que não vejo há tempos e é altamente conhecedora de literatura. Comprei sábado um livro que ela indicou no Instagram (Devoradores de Sombras), que ainda não li mas, pela orelha, achei que tinha tudo a ver com um trabalho atual (¿Qué haré yo con esta espada? (Aproximación a la Ley y al problema de la Belleza) de uma artista catalã, Angélica Liddell, sobre a qual li hoje num texto no Medium. Mandei o link pra ela.

Ainda preciso ler tudo o que me foi passado hoje e não vou fazer agora. Também não vou conseguir começar o livro porque me conheço, com a cabeça a mil fico sem foco.

Saí da sessão rindo porque, desta vez, quando o analista me interrompeu, achei que era pra eu parar de falar mesmo, encerrar a sessão e deixar entrar a próxima paciente.

[natural]

[li em algum lugar que Lacan não gostava de chamar os analisados de pacientes e, sim, de clientes. Não sei]

(quinta sessão de análise)

23.9.16

FORMATOS, CONTEÚDOS



Cadeira Balanço, de Zanine Caldas.
Arquiteto e artista que tanto eu como meu irmão amamos (mas que não conheci por ele)


Não precisei de direcionamento. Entrei, cumprimentei o analista (dando a mão) e deitei. Respirei fundo e ele disse algo como "sim", que foi quase concomitante ao começo da minha fala. Retomei a questão da análise passada (o esvaziamento do meu afeto) e disparei um misto de fatos e elaborações. Parei. Ele, acho, disse um outro "sim", ou um "continue" mas, pra mim, suas interpelações mais importantes (sempre diante de pequenas pausas minhas, silenciosas) foram "o que você está pensando agora?"

Eram outros pontos e outras questões que eu então falei ali sob livre demanda.

Isso aconteceu durante os 40 minutos da sessão (foi primeira vez que conferi o tempo depois).

...

Estou pensando agora em quando meu irmão comprou o divã do consultório dele. Uma peça antiga, super bonita, no bazar do Lar Escola São Francisco, que ele mandou reestofar. Nos anos 90, eram apenas donos de loja de antiguidades que compravam ali — eu passei a fazer o mesmo e nunca parei; vi o mercado crescendo e se modificando; fiz uma matéria com os irmãos Campana, em 2002, que disseram comprar ali elementos para suas peças (inclusive uma famosa). O Luiz tem esse divã até hoje, em seu consultório da Bahia, que é lindo, com livros, quadros, tecido da Goya Lopes. Eu já tinha reparado como ele também (eu) tem o dom da decoração (as casas dele sempre foram lindas e, assim como eu, ele mistura esse tipo de peça garimpada com elementos novos e outros que ele mesmo faz). Me dei conta agora de que temos tudo isso em comum (apesar dos estilos serem diferentes. Eu misturo com o moderno, ele, com o rústico).

A primeira vez que achei meu irmão estiloso foi em uma viagem que fizemos, a família, para a Europa, em 1996. Estava um inverno atípico, mais frio que o normal, e lembro de nós dois passeando pelas ruas de Paris, vendo casais de gays de mãos dadas ou se beijando e comentando como naquele Brasil ainda atrasado ainda não era possível. Por outros motivos, que fazem parte de toda minha história e questões, detestei essa viagem, me senti deslocada e, de Londres, voltei antes pro Brasil. Uma grandissíssima pena (e perda). Mas, enfim, eu observava as roupas do Luiz, pensava que o corpo dele tinha uma altura e um formato que faziam com que aquele casaco enorme caísse bem em composição com calça e bota. Isso em comparação ao meu corpo, baixo, curto demais e às minhas roupas (meio que arranjadas de última hora) de quem nunca tinha ido à Europa (eu era a única, a sem interesse por cultura ou livros, a distanciada do meu eu anterior construído pela educação que tivemos em casa. Anos depois, isso voltou, apesar da depressão. Ou por ela?).

Semana passada, me olhei no espelho sem querer, de calça e regata (pijama) e acho que percebi, pela primeira vez, meu corpo todo como magro, com um olhar diferente do habitual. Mas, pra mim, ser magra (que é o sempre) é apenas um fato dado, óbvio, que não posso negar (embora goste muito). Quando me olho no espelho vejo minhas pernas curtas e atarracadas e desejo, sempre, ter 1,65m (tenho 1,60); esses 5cm a mais quero nas pernas.

...

O que fiz agora foi uma associação livre. Cheguei a deletá-la, para me ater ao tema que tinha me proposto, mas voltei, deixei rolar. Minha intenção inicial era falar da minha compreensão prática (e no sentimento) da importância do divã (e como me senti ali cada vez mais liberta e livre, ao longo do tempo da fala e de acordo com ela) e também, e justamente, da associação livre. Mas a intenção do "minha análise lacaniana" não é descrever ipsis litteris a sessão do dia e, sim, algo na linha do que fiz hoje.

Mas preciso dizer: este não é um post que me agrada, como me agrada o anterior. Embora naquele eu tenha me exposto muito mais (coragem que ainda me surpreende), gosto da forma, do encadeamento das ideias. Este acho quase "feio".

...

A sessão terminou depois do que, agora, vejo com um círculo perfeito: o ponto que começou. "Aleatoriamente". Não comecei desesperada e chorando, como na anterior, mas objetiva, e se o choro veio em alguns momentos e falas, sem que eu esperasse, desta vez o senti quase como um incômodo. Quando, já sensível, falei de novo da dor por não compartilhar meu afeto, o analista falou "é disso que vamos tratar aqui" e levantou— eu ainda deitada — dizendo para nos encontrarmos de novo na segunda, às 15h. Estou encantada com essas finalizações.

Estou encantada com fazer análise lacaniana. E cheia de esperança de tratar isso e tantos outros aquilos que já sei quais são (outros que não conheço?), entremeados pelas minhas livres associações.

Deitada no divã.

[o divã e o consultório do meu irmão são muito mais bonitos]


(quarta sessão)

21.9.16

A (NÃO) RAZÃO DO MEU AFETO

Estou apaixonada pelo trabalho (e pela história) da fotógrafa americana Francesca Woodman
FW - Angel Series

No terceiro dia de análise, ele me apontou o divã. Ali, senti meus 41 anos como equal maturidade: foi minha primeira vez deitada porque, em análises passadas, recusei. Desta vez não foi um convite nem eu diria não.

Eu poderia discorrer sobre meu sentimento em relação a isso porque, claro, não passou batido. Mas foi 1% do que senti na sessão. Não sei se foi a maturidade ou a necessidade de falar que me fizeram abstrair, na maior parte do tempo, o fato de o analista estar atrás de mim (o que, no passado, eu acreditava me daria vergonha). Mas eu estava pouco me fudendo pra isso, queria falar. Colocar pra fora, naquele contexto analítico, o que estava me desesperando.

E o motivo do meu desespero é (no presente) meu amor não compartilhado com o "objeto do meu afeto".

(A frase entre aspas é o título, em inglês, de um filme hollywoodiano. Em português, foi traduzido para "A Razão do meu Afeto" e ambas as formas se encaixam aqui).

DA FALA

A associação é livre e poucas foram as intervenções do analista.

Aqui, traduzo a sessão em uma elaboração que fiz outro dia: eu esvazio o outro do meu afeto. E implodo, com uma intensidade extremamente forte, o sentimento já transformado em mistura de falta de amor e medo. Ainda existe um afeto pelo outro (que ele não sabe) mas agora sentido por mim como dor.

Pelo medo de não ser amada. Pelo medo do meu amor ser um fardo para ele.

Isso acontece em relações amorosas. Ou em não-relações já que nunca tive algo duradouro com objetos do meu afeto. Há um espaço de tempo em que ficamos juntos (meses), no qual, à medida que vou percebendo meu envolvimento emocional, vou me afastando cruelmente. É em função do peso negativo que acredito meu amor ser para o outro que o retiro. No lugar, coloco um contra-amor: começo fria até que digo, com todas as palavras, que não gosto dele. Ainda faço pequenas maldades para "mostrar" que não o quero. Atuo.

Já tive relações duradouras algumas vezes, com caras de quem não gostava mas que gostavam de mim. Por me sentir carente; por desejo de me relacionar; por pressão social. Nunca por amar. E quase sem sexo porque eu era incapaz de sentir tesão por esses caras (e evitava o máximo que podia). Mas, mesmo assim, eles continuavam comigo. Isso com consequências que iam de traição a crises e DRs desgastantes.

Eles eram apenas também atores com os quais eu contracenava para tapar o buraco da falta de amor verdadeiro e do meu medo da solidão. O último terminou, acho, em 2002 e ali me prometi nunca mais fazer aquilo. Senti um misto de dependência emocional e asco durante os dois anos em que estivemos juntos que chegou ao limite do insuportável.

Existe em mim um vazio (e a percepção da estranheza social) em ser solteira (já faz quase 15 anos) mas não mais o horror em estar com alguém que não amo, com quem não quero transar (eu gosto bastante de sexo) e que me traz uma puta sensação de perda — carrego um desejo de vida e aquilo é viver morrendo. Algumas pessoas passam assim a vida toda e isso me parece desesperador. Mas foi apenas a partir desse vácuo que pude elaborar o que acontecia comigo, meus padrões, minhas verdadeiras questões.

Me digo que teria superado (ou minorado) isso antes se as análises que fiz em outras épocas não fossem ruins (duas e duradouras) ou se, diante da falta de empatia por duas outras (uma com o Contardo Calligaris) que não levei adiante (os profissionais eram bons), eu tivesse procurado outro analista. Mas me voltei a terapias dos mais variados tipos, que não sei nomear, mas daquelas que costumo chamar de falaciosas (praticamente conselhos de amigos) e que existem tanto por aí. Também tentei me espiritualizar (com pessoas sérias e outras picaretas) mas não é assim, nunca. Acredito no espiritual sem intermediários. E também não como ferramenta de resolução de problemas. A psicanálise estuda o psiquismo HUMANO. A existência.


DA FALA-CHORO

Chorei desesperadamente na sessão de segunda não apenas pela compreensão da minha dinâmica amorosa perversa em geral mas também em específico: comecei um quase relacionamento em março que não saiu do quase (mas quase saiu da existência) porque em abril comecei a destruir. Um mês intenso de grande identificação, do tipo que chamo de "encontro". Isso, dentro da mudança fortíssima e estrutural que comecei em janeiro (ou seja, muito recente, infelizmente). A cada destruição, uma tentativa, ainda muito fraca, de reparar o feito, consertar o dito. Ele cada vez mais esvaziado do meu amor; eu transformada em angústia, tristeza e culpa o vendo se afastar.

Não acabou. Porque minha tentativa de reconstrução, desta vez, foi ser a Isabela, não a atriz, e revelar meu afeto. Como ele vai reagir diante disso ainda não sei. Tenho que lidar com o fato de que fui cruel (está difícil me perdoar) e entender que seis meses depois o sentimento dele, em consequência, pode ter mudado. Mas existe uma salvação para além disso: ao compartilhar meu amor, a parte que vai para ele me liberta. Não é mais (ou apenas) ficar ou não com o outro, é ficar comigo sem esse peso.

Ainda na análise, depois de muito falar, fiquei em silêncio. Ficamos em silêncio até que o analista perguntou o que eu estava pensando. Respondi que desejava que ele falasse algo que parasse minha dor "e é irônico porque isso é feito nas terapias falaciosas que sempre critico. E sei que não funciona". Ele então deu por encerrada a sessão.

A FALA

Não escrevo para contar, mas para falar ("Não me interrompa, me deixe falar, estou limpando minha chaminé", teria dito Anna O.). Escrevendo me livro um pouco dessa fuligem que me angustia e também elaboro. Como ao perceber que escrevi, no parágrafo acima, "revelar" meu afeto (poderia ter escrito "dizer o que sinto"). A etimologia da palavra é simbólica e revela minha intenção a partir de agora: tirar o véu.

[os significados são lindos: "dar-se a conhecer verdadeiramente", "mostrar-se"]

[entre Freud e Lacan coloca-se a linguística]

15.9.16

CARALHOS ME MORDAM


Imagem do meu Pinterest que, claro, tem um board chamado The FUCK Manifesto

Terça, comecei (acho) a fazer análise de novo, com um psicanalista lacaniano. Não tenho certeza porque isso não ficou definido (embora eu volte hoje), como deve ser com todos os lacanianos após a primeira sessão ou a terceira, que foi a quantidade que fiz com uma outra lacaniana, ano passado, e parei, sem nem ter começado ou pago, ou falado em valores. O que também aconteceu com este (meu?) analista. Ele, como ela, finalizou a sessão perguntando se eu queria marcar uma próxima, ou perguntou antes de finalizar, mas já finalizando, algo que meio se confunde nesse tipo de situação que, me parece, faz parte da coisa toda. Tô ansiosa para fazer análise lacaniana e gostei dele, mais do que dela.

Mas o ponto não é este, embora se eu tenha escrito um parágrafo de sete linhas compridas e cheias de vírgula e repetido quatro vezes a palavra lacanian_ (houve variação de gênero), há um ponto aí e eu sei que há.

Voltando à ideia inicial deste post: terça, nessa minha primeira sessão de análise, pensei se deveria falar ou não palavrão. Já percebi que tenho uma postura dupla, conflitante, em relação a isso. Falo bastante palavrão e adoro, em especial a palavra caralho, embora a ache pesada e, às vezes, fique temerosa da reação das pessoas. Mas também me percebo em situações em que quase não falo palavrão (e definitivamente não falo caralho). Porra é outra palavra que uso muito. Quando quero amaciar, uso puerra, uma variação que não existe no léxico e acredito verdadeiramente ser de minha autoria embora saiba que seja possível outras pessoas terem tido a mesma ideia (chamam algo parecido de inconsciente coletivo, mas não sei se a psicanálise concorda então só escrevo aqui pra manter um quase subtema).

De novo voltando à ideia inicial (tá foda hoje), pensei se deveria falar ou não palavrão na análise e decidi que sim. Soltei alguns mais leves (merda, bosta) e falei caralho exatamente na hora que contei pra ele que só no caminho pra sessão me dei conta de que não tinha perguntado o preço. Ontem, caminhei até a yoga pensando nisso. Quando voltei, vi um post sobre palavrão no blog da Noemi Jaffe, entitulado Cu (inconsciente coletivo!), que talvez tenha posto fim a esse meu transtorno seletivo.


Segue:

cu

amo palavrões: cu, buceta, caralho, bosta, merda, puta e suas derivações. concentram força, simbolismo e vitalidade e, ao mesmo tempo, conferem leveza e humor ao enunciado. "cu", por exemplo, seja em "vai tomar no cu", ou em "idiota é o teu cu", conjuga, em apenas duas letras, as ideias de segurança e de "não chega perto porque vou dar o troco". nesse sentido, "cu" está bem próximo de "caralho". já "merda" chega a imprimir à frase noções de lirismo, desamparo e pedido de ajuda. é só ouvir alguém dizer "merda" e sentir vontade de ajudar. com "bosta" ocorre algo semelhante. "puta" é altamente maleável e serve para elogios, reclamações, esquecimentos, tudo com alto teor de expressividade e afeto. palavrões são patrimônios da língua, sempre a postos para transformações, adaptações e novidades e sempre de forma sucinta e potente. vão sobreviver às palavras chatas, como "altissonante" e "de acordo" e o "fodido", coringa campeão, se deus quiser ainda enterrará o insuportável "ferrado".

Considerando-se que Noemi é uma entendedora (e estudiosa) respeitada da língua portuguesa declaro a porra deste assunto, definitivamente, encerrada.

...

Mas este post ainda não acabou. Na linda manifestação de mulheres contra a cultura do estupro, #PorTodasElas, que rolou em junho, um dos gritos de guerra era (no swing da música Tieta, do Caetano, embora seja preciso encolher um pouco as palavras pra caber):

"Êta, êta, êta, êtá
Eduardo Cunhá tira a mão da minha bucetá"

Eis que me vi constrangida em cantar por causa da palavra buceta. Confesso que cheguei fazer coro  algumas vezes mas parando antecipadamente no pronome feminino "minha". Fiz ali rapidamente uma análise de caso, claro. Primeiro, observei o público, bem jovem (muitas secundaristas) e pensei que meu moralismo poderia ser geracional, afinal, na idade delas falávamos muito todas as variações do verbo foder e usávamos cu à vontade (não ainda na prática, pelo menos não eu) mas não falávamos nem caralho (considerada uma palavra muito baixa) e buceta estava fora de questão (baixíssimo calão). Então, perguntei a duas amigas que ali estavam comigo, uma mais jovem (33) e outra quase da minha idade. Bingo. A primeira se declarou fã da palavra e, liberta, cantava a plenos pulmões. A segunda, como eu, também não se sentia à vontade para fazer da buceta um grito.

Mas em um tom (bem) mais baixo e em lugares privados, tanto no verbo como na prática, nossa geração se libertou.

Imagina a das garotas?


[no colegial — porque sou do tempo que chamava assim — o professor de português nos ensinou que a palavra cu não tinha acento agudo. que fique claro, eu já sabia]

[seja o inconsciente coletivo que for, eu inventei a expressão que dá título a este post e que tá quase onipresente — mas não vou falar isso na análise, admito — na minha boca]


1.9.16

HIGH AND LONG ROADS




O que eu quero deixar arquivado aqui no blog, hoje, é um conceito que eu desconhecia na teoria mas que faz muito sentido na minha prática. De viver. Chama High Road. Que corresponde, em português, ao "sair por cima" da imagem do Think Olga que ilustra este post.

Foi lá, na Olga, que li sobre isso, e depois dessa leitura parcialmente me libertei. Me encontrei no conceito tanto pra um lado quanto pro outro.

Sempre fui de expurgar em palavras minha dor, revolta e frustração e, em retorno, ouvi que era agressiva. Sofri as consequências dessa "agressividade" com julgamentos e olhares de repreensão. Repressão. Então conheci uma amiga (e isso talvez já faça mais de 10 anos) que era dócil, meiga, suave. Tudo o que a sociedade espera das mulheres (e tem um texto na Olga que também fala disso) e é agora corroborado pelos ataques à presidenta Dilma Roussef, cuja assertividade e força são tidos também como agressividade no sentido mais pejorativo e amplo do termo.

Eu adorava aquela amiga e amava aquela amizade mas não deixava de me incomodar com sua falta de colocação (problematização) de qualquer questão, em qualquer plano. O que vinha de uma negação de suas próprias raivas, como se fosse errado sentí-las. Ao mesmo tempo, eu a admirava porque o retorno do entorno em relação à postura dela era o oposto do que eu vivia normalmente: parecia agregar afetos. E aqui, três ressalvas: ela não era assim por maldade ou falsidade, ela realmente negava isso dentro dela e imagino que por alguma dor, a natureza das negações. E aquilo, de alguma forma, a sufocava até que um dia ela se libertou (acho). A terceira ressalva é a mais importante: não eram afetos. A ordem primeira do afeto é aceitar a natureza do outro. Aquilo era a manutenção de um padrão social em que cada agente cumpria o papel que "lhe cabia". E travestir isso de afeto é perverso.

Não expliquei o que é High Road. Em português, o texto já linkado da Olga dá conta do recado melhor do que eu poderia fazer (e é por isso que quero guardar aqui). Lá, há um link para um outro texto, da canadense Lainey Lui: Lainey, For Real: the Appeal of Not Taking the High Road. Outra preciosidade que quero guardar.

E eu sigo na tentativa de ser eu mesma, custe o que custar. E enfrentar esse social perverso.

[and it's a long road]


[logo depois que postei vi essa tirinha da mafalda <3 p="">




25.8.16

PARADOXOS EXCLUDENTES E COMPLEMENTARES (O QUE, EM SI, É PARADOXAL)


Achei que era frase de internet mas é o título de um livro do Primo Levi


Quatro frases, três de música e uma de um poeta do século 19, estão pululando na minha cabeça desde ontem.

Porque tenho conseguido entronizar alguns padrões de comportamento que me fodem a vida (same as everyone if we're talking about human species). E fazer mudanças genuínas.

(Entronizar como sinônimo de algo que na psicanálise corresponda ao desencadeamento efetivo de mudanças).

Ou seja, eu praticamente estou dando um salto evolutivo na minha própria vida. Batendo meus records. Me sentindo o Thiago Braz do meu próprio psiquismo.

(e exagerando no feito que nem transitado em julgado foi, tá lá sambando na primeira instância, but still)

E, o que achei curioso é que, quando chegamos nesse ponto, algumas coisas podem funcionar como  gatilho de um novo passo, uma nova atitude. Ironicamente, fazendo o mesmo papel que a auto-ajuda promete, tenta e engana já que essas frases de música estão funcionando, pra mim e dentro do contexto acima explanado, como frases de motivação. E o motivacional é o mote dessa galera self-help.

O que a auto-ajuda e algumas terapias falham big time (e muitas vezes são falaciosas) é tentar mudar o comportamento pelo "força, fera, você consegue mudar sua vida". A psicanálise é uma ciência de dimensões gigantescas que estuda a também gigantesca psique humana; demanda tempo, entrega, dor porque sabe a profundidade e o entranhamento dos nossos buracos. E essa outra galera (gurus incluídos) promete conseguir fazer com que você mude sua vida com um livro, um vídeo, pílulas de sabedoria, sessões de terapia cheias de conselhos.

Está claro que só acredito no trabalho da psicanálise. No trabalho que os psicanalistas têm em entender aquela porra gigante toda. No trabalho, então, que têm com cada paciente e sua individualidade (e consigo mesmos, ou não podem ajudá-los) No trabalho que demanda ao paciente, se encara chafurdar na merda.

Por isso, uma das frases que me vieram à cabeça ontem é

The only way out is through (quote, não sei se de algum livro, do Robert Frost).

Outra, depois,

Whatever gets you through the night (da música de mesmo nome do John Lennon)

Então,

There's no other day let's try another way (da música See Emily Play, do Pink Floyd)

E hoje,

I'm never gonna stop the rain by complaining (da música Raindrops Keep Falling on My Head, do filme Butch Cassidy and the Sundance Kid)


[mas, lembrando: não é feitiçaria, é tecnologia]

[da wikipedia, sobre o título desse livro do Primo Levi:"The title is taken from a well-known rabbinical saying attributed to Hillel the Elder: 'If I am not for myself, who will be for me? And when I am for myself, what am I? And if not now, when?']