25.8.16

PARADOXOS EXCLUDENTES E COMPLEMENTARES (O QUE, EM SI, É PARADOXAL)


Achei que era frase de internet mas é o título de um livro do Primo Levi


Quatro frases, três de música e uma de um poeta do século 19, estão pululando na minha cabeça desde ontem.

Porque tenho conseguido entronizar alguns padrões de comportamento psíquicos que me fodem a vida (same as everyone if we're talking about human species). E fazer mudanças genuínas.

(Entronizar como sinônimo de algo que na psicanálise corresponda ao desencadeamento efetivo de mudanças).

Ou seja, eu praticamente estou dando um salto evolutivo na minha própria vida. Batendo meus records. Me sentindo o Thiago Braz do meu próprio psiquismo.

(e exagerando no feito que nem transitado em julgado foi, tá lá sambando na primeira instância, but still)

E, o que achei curioso é que, quando chegamos nesse ponto, algumas coisas podem funcionar como  gatilho de um novo passo, uma nova atitude. Ironicamente, fazendo o mesmo papel que a auto-ajuda promete, tenta e engana já que essas frases de música estão funcionando, dentro do contexto acima explanado, como frases de motivação. E o motivacional é o mote dessa galera self-help.

O que a auto-ajuda e algumas terapias falham big time (e muitas vezes são falaciosas) é tentar mudar o comportamento pela "força, fera, você consegue mudar sua vida". A psicanálise é uma ciência de dimensões gigantescas que estuda a também gigantesca psique humana; demanda tempo, entrega, dor porque sabe a profundidade e o entranhamento dos buracos humanos. E essa outra galera (gurus incluídos) promete conseguir fazer com que você mude sua vida com um livro, um vídeo, pílulas de sabedoria, sessões de terapia cheias de conselhos.

Está claro que eu só acredito no trabalho da psicanálise. No trabalho que os psicanalistas têm em entender aquela porra gigante toda. No trabalho, então, que têm com cada paciente e sua individualidade. No trabalho que demanda ao paciente se encara chafurdar na merda.

Por isso, uma das frases que me vieram à cabeça ontem é

The only way out is through (quote, não sei se de algum livro, do Robert Frost).

Outra, depois,

Whatever gets you through the night (da música de mesmo nome do John Lennon)

Então,

There's no other day let's try another way (da música See Emily Play, do Pink Floyd)

E hoje,

I'm never gonna stop the rain by complaining (da música Raindrops Keep Falling on My Head, do filme Butch Cassidy and the Sundance Kid)


[mas, lembrando: não é feitiçaria, é tecnologia]

[da wikipedia, sobre o título desse livro do Primo Levi:"The title is taken from a well-known rabbinical saying attributed to Hillel the Elder: 'If I am not for myself, who will be for me? And when I am for myself, what am I? And if not now, when?']

30.7.16

DO YOU MIND?


Outro dia, conversando com meu irmão, falávamos sobre a falta de argumentação de grande parte  direita, que não baseia seus argumentos em fatos, dados, pesquisas, textos, geral; não cita autores. A retórica é baseada achismo. ACHO logo depois do pronome pessoal no singular.

E então que, esta semana, assisti a dois vídeos que corroboram nossa conversa. Um é um trecho de uma entrevista, pro Cortex, com a ativista americana Deborah Small, de Harvard (Direito e Políticas Públicas). Ela diz:

"The people who actually live multiculturally are not Trump supporters. They don’t FEAR it [minorities]. It’s so funny because people FEAR what they never experience. So the people who are virulent, Trump supporters, are people who actually don’t live close to people of color, who don’t have relationships with Mexicans, don’t know any Muslim people, who only know what THEY THINK THOSE THINGS MEAN".

Outro, é o vídeo do comediante John Oliver, sobre a Convenção Republicana. A partir do minuto 5 e pouco, Oliver analisa FATOS da Convenção:

— "What is truly revealing is if the implication 'BELIEVING something to be true' is the same as it being true. That is the thing of the Republican Convention this week. It was a four day exercise emphasizing FEELING over facts".

A sequência é ainda mais juicy. Ele passa um vídeo de uma entrevista feita por uma jornalista da CNN com Newt Gingrich, político republicano. O que se vê é uma sequência de feelings over facts absurda, chocante. É sobre os índices de violência nos EUA. Ele nega fatos, pesquisas e índices que ela repetidamente mostra pra ele sobre a queda da violência. Até que, a certo ponto, ele fala que não importam os dados e sim o sentimento de medo dos americanos, que isso é maior e que é isso que conta.

Esse um é artifício usado mundialmente como controle político sobre a população. Está acontecendo concomitantemente no mundo todo, ou seja, aqui também. Aqui muito. E não é que eu ACHE isso.

[embora o feeling AND fact seja praticamente palpável em conversas no dia a dia]



4.7.16

A ARTE NOS FAZ ENTENDER OS OUTROS, VIDA, NÓS



O título da entrevista com o escritor noruguês Karl Ove Knausgård me fez clicar na hora (A literatura nos faz entender que os outros somos nós, diz Knausgård) mas fui pega por uma outra fala dele. Foi a resposta à pergunta " (...) Como que a morte mudou a forma como enxerga a vida?"

"Só tive uma experiência com a morte e esse foi o motivo pelo qual escrevi 3.600 páginas a meu respeito. Vi meu pai morto e tentei entender o que aquilo representava. Quis expressar a intensidade da vida. O sentido da vida foi tão impactante quando confrontei a morte que tudo mudou. Era como estar no mundo de uma forma completamente diferente. E isso desapareceu e eu voltei a ter uma vida normal, com os problemas do cotidiano. E aí vem o amor, o nascimento de filhos e há o mesmo tipo de concentração de vida. É o oposto com a morte porque a vida desaparece, mas as estruturas são as mesmas. E é quase impossível viver assim, com essa intensidade. É impossível estar apaixonado mais que alguns meses, e aí outra coisa deve acontecer, e é a mesma coisa com o luto."

Lembrei, então, de um diálogo entre os personagens da Julie Delpy e do Ethan Hawk em Before Sunset: 


JD: This friend of mine, she's a shrink...

(EH): — How's she doing?

She's a mess, but... No, she said she's been dealing with couples that are breaking up...for the same reason.

— What reason is that?

They all expected, after a few years of living together, for the passion, that desire, to be the same.

Yeah, right. It's impossible.

And thank God... we'd end up with aneurysms in that constant state of excitement, right? We'd do nothing at all with our lives. Would you have finished your book if you were fucking every five minutes?

[the underlines are overexplicit]



5.6.16

DO SIMBÓLICO [E DO AMOR]



Há alguns anos não escrevo mais neste blog, nem sei se ainda nos pertencemos. Mas existe algo prático em nossa relação: ele é minha memória eletrônica; parte de mim, nem que externa.

Li algo que me é muito caro e se relaciona com um post que fiz há algum tempo (e já revisitei outras vezes). Por isso a postagem quase póstuma, mas importante de ser guardada ao alcance do meu desejo. É um post, no Facebook, do psicanalista Marcelo Veras. (Na minha leitura) é sobre a desconstrução romântica - talvez ingênua - e impositiva da gravidez; um contraponto na mensurabilidade do amor em relação à gestação x adoção.

Segue:

"Uma constatação da minha clínica: no aleatório dos dados da constituição de um elo familiar, vi a mesma ansiedade e felicidade nas mães que gestaram e nas mães que adotaram. Parir é o maior barato mas não é um ato biológico, é um ato simbólico. É o ser falante que está em questão. A dor dessas mães pode ser a mesma, não faço nenhuma distinção entre a dor das contrações do útero e a dor da alma da expectativa do que vai decidir um juiz. Não engravidar também é um acontecimento de corpo, também dói. Tudo é dor diante de um real imprevisível, tudo exige a metáfora, sempre singular, do amor".


Quando li me emocionei. E lembrei da fala da também psicanalista Caterina Koltai, que está neste post aqui do blog mas que parcialmente reproduzo abaixo (negrito do original):

"(...) na verdade, a família burguesa é muito recente; essa estrutura mamãe-papai-filhinhos, historicamente, é muito recente. Foi isso que criou esse mito do amor materno. 

Me parece que, para qualquer discussão desse tipo, é fundamental atravessar esse mito. E não transformar o amor materno em algo instintivo. Saber que é uma construção cultural, que já dura um certo tempo, mas que é uma construção cultural como todo o resto. 

Um filho tem que ser sempre adotado. Aquele que sai da nossa barriga precisa ser tão adotado, de alguma maneira, quanto o outro. Esse pequeno estrangeiro, que chora, que grita, que fica vermelho, a gente precisa adotá-lo, precisa entender o que ele quer nos dizer e é assim que ele vai se humanizar."

[preciosidades devidamente salvas no meu também precioso HD externo]

14.12.13

2x2 COM VANTAGEM PRA GENTE


Trecho de "Pirocas ao Vento", post de despedida do Inácio Araújo no UOL



De ontem, 1,
escrevi o post anterior, sobre Divórcio, do Ricardo Lísias. Que, entre outras críticas à grande imprensa, fala sobre alguns jornalistas comentarem o livro sem ter lido . Então, coincidência ou não, achei um texto, na Folha, com um erro crasso logo ali no primeiro parágrafo. Uma informação - que pelo estilo narrativo de Divórcio, que usa da repetição de fatos e frases - não passaria nunca desapercebida pelo LEITOR.

De ontem, 2,
mas só vi hoje (num post da Giovana no Facebook), um texto do Mario Sergio Conti, na Folha, que pretende fazer uma comparação entre filmes que têm muitas cenas de sexo. Pretende - e não chega lá - porque faz uma resenha errada de Tatuagem. Ou seja, ele fala de um filme sem ter assistido! Ele provavelmente (porque agora duvido de tudo) viu Azul, que é o filme mais falado, e ouviu o galo cantar que tinha alguns outros filmes com cenas de sexo. E pra que assistir aos outros, né? Pra que se dar ao trabalho de pesquisar? Até porque ele deixou de fora da "crítica"o também francês "Um Estranho no Lago" que se encaixaria perfeitamente ali no montinho de palavras que ele juntou num espaço da Folha…

De ontem, 3,
várias pessoas compartilharam, no Facebook, o post de despedida do Inácio Araújo do UOL (que é do grupo Folha). E que post! Eu pus um trecho na imagem mas vai lá e lê inteiro. "Pirocas ao Vento" vale cada palavra.  Haha, sim, é esse o título.

De ontem, 4,
- vejo que houve empate no "fomos bem/fomos mal" (quem foi do JT/Estadão das antigas sabe o que é isso) deste post - a Fórum é a segunda revista com maior engajamento do Brasil no Facebook, de acordo com um levantamento da Revista Imprensa. A Veja é a sétima colocada. Yay!

De hoje, 1,
leva tempo, mas as coisas mudam.



[eu voto para que mario sergio conti entre no lugar de inácio araújo para crítico de cinema do uol. acho que tem tudo a ver. acho também que ele mente a idade hahaha essa coisa tão cafona da geração dele. 58 anos? sei]

13.12.13

"MEU CORPO FERIDO, POR MAIS QUE EU AINDA PERCA ENERGIA, PRECISA PORTANTO VIRAR LITERATURA"



Li Divórcio, do Ricardo Lísias, numa tarde.

Depois, fui procurar as resenhas e críticas na internet, principalmente nos grandes jornais - se você conhece a história, sabe o porquê. E fiquei com um sorrisinho irônico de satisfação ao perceber que todas eram positivas - não teria como não ser, é um livro ótimo.

Esqueça apenas um textinho ordinário, na Folha, que começa dizendo que o divórcio em questão se deu três meses após o casamento. Oi? Um jornalista que não se dá ao trabalho de ler o livro antes de escrever sobre ele… ouch!


O Ricardo Lísias, escritor, deve ter dado risada.

O Ricardo Lísias, personagem, diria (e disse) que muito jornalista falou do romance sem ler. E que falar mal da grande imprensa é chutar cachorro morto.


Algumas resenhas falam lindamente da forma, da repetição proposital, do arranjo das palavras. Outras da ironia deliciosa, da delicadeza da perda e da reconstrução da pele e da vida. Da morte.

Lê o livro.



[eu fiquei com preguiça de entrar no mérito de 'divórcio' ser ou não verídico]

[até porque isso é óbvio]

8.12.13

A VIDA DE ADELE E O BAQUE DE HEROÍNA



Fiz uma cagada ontem. Logo depois das três horas de "Azul é a Cor Mais Quente", eu fui pra uma festa. Fui, porque queria prestigiar uma amiga (o que foi legal) mas, putz, eu tinha acabado de assistir a uma porrada de filme e tudo o que pensava era

quero ir pra casa digerir o que vi. Mas não fui.

E foi uma perda. Porque, por mais que eu assista de novo, algumas coisas são que nem brown sugar, babe - você só vai sentir aquilo da primeira vez. As outras vão ser tentativas inúteis de repeti-la.

E depois de "Azul…" você sai do cinema meio atordoado.

Ainda tive uma segunda chance - fico repisando o fato porque meu arrependimento é realmente grande (e me massacra) - quando, indo pra festa, precisei parar pra abastecer. Eu, que já estava dirigindo de forma estranha, falei toda confusa com o frentista. Então racionalizei

caramba, eu tô realmente tocada pelo filme. Mas segui no caminho inverso do que eu sentia.

E foi uma pena. Que isso tenha acontecido bem ontem. Porque, ultimamente, tenho tomado a decisão certa.



Durante a semana, li algumas coisas a respeito de "Azul…". Além das matérias de jornal e críticas de amigos, li um post bem legal do Thiago Stivalleti. Entre outras coisas, ele fala sobre a polêmica do filme em Cannes (onde ganhou a Palma de Ouro) e sobre o grupo de lésbicas que criticou as cenas de sexo - elas dizem que aquilo não existe, que mulheres gays não transam daquele jeito. Sobre isso, Thiago escreve:

"(…) fico com a frase do Michel Ciment este ano na Mostra: 'as pessoas continuam acreditando que um artista só pode falar daquilo que conhece. Se fosse assim, Kubrick nunca teria feito 2001 porque não viveu no tempo dos primatas e nunca viajou numa nave espacial'. O importante aqui não é 'corresponder à realidade', mas criar uma obra coerente em seus próprios sentidos".

No post dele não tem, mas, aqui, um link pro vídeo da reação desse grupo (não sei se teve outro) de lésbicas às cenas de sexo do filme (a maior tem sete minutos).

E o Jotabê fez um post sobre o recém-lançado gibi, de Julie Maroh, no qual o filme foi inspirado.

"DANCE AND FLY"



Anelis Assumpção acabou de postar no Facebook o vídeo acima e a letra da música.


"Not Falling"

Babilon wants to eat someone
I'm not falling
Babilon wants to tweet someone
I'm not following
A cada corpo que padece prece
Ao destino extinto de uma espécie
Ao que não se esquece
Quem é vivo sempre aparece
A humildade é relativa no ar
We can't breath
Can't rewind
Just go away
Dance and fly
I'm gonna give birth
I bear in my womb the hope
Peace says the pace
For the blessed mass
The river comes down
And takes what we don't feel like
The sea hugs my soul
And everything back to your place
O coração leve
Como uma pluma se eleva
Eu não estou caindo

Eu já disse aqui que (a musa) Anelis foi minha trilha este ano. Que tá no finzinho e foi tão bom! Ela, agora, tão certeira neste dia vem cantar o que eu tava sentindo: o coração leve.


[eu não estou caindo]

[mas eu já sabia disso]