crianças não são puras, nem anjos, nem maldade free. elas talvez sejam ingênuas e, com certeza, sua escala de valores é bem diferente da dos adultos. o que provavelmente faça com que muita gente acredite na primeira frase deste parágrafo.
por exemplo, quando eu era pequena, meus avós tiveram que ir trabalhar na feira. foi uma queda violenta no padrão de vida deles, praticamente uma vergonha travestida de "temos saúde e isto é trabalho honesto". mas dos meus cinquenta centímetros de existência, aquilo era tanto encantador quanto glamuroso: eu era íntima dos donos de uma barraca, eu, que adorava ir à feira do meu bairro para comprar fivelas tic-tac, roupas de boneca e ganhar pedacinhos de frios e frutas. na feira do bairro dos meus avós, eu fazia parte grupo de amigos do rei.
um dia, na escola, a professora contou que era dia do feirante. meu orgulho era tanto que, mesmo tímida, levantei da carteira, enchi a boca e contei dos meus avós! só muitos anos depois entendi sua expressão de espanto e constrangimento. num colégio daqueles, realmente, não fazia o menor sentido.
mas essa coisa de sentido é bem relativa. "fim de feira", para mim, já foi o momento mais legal do dia. era quando meu avô levava a mim e aos meus irmãos para dar uma volta na boléia do caminhão. e acho que conseguíamos, naquele curto espaço de tempo, transformar a vergonha dele em satisfação. nos sentíamos os súditos mais felizes do mundo, compartilhando o trono com sua majestade.
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