25.11.08

A MULHER CINZA

clara identificou a mulher com facilidade. o olhar pétreo a fitava ao mesmo tempo em que procurava, desconfortavelmente, ignorá-la. a pele, cinza, combinava com a boca dura, os dentes escuros, o sorriso forçado. o rosto expressava uma coisa, a mulher falava outra e clara lia sem dificuldades palavras que não eram ditas. a pouca inteligência da mulher a entregava em cada gesto falsamente cortês. e a tez manchada, enrugada demais para a idade de menos, expunha uma amargura medíocre. seu vício excessivo fez clara parar de fumar - não queria afinidades com aquela mulher, não queria encontros ou conversas casuais. clara sabia que a mulher era leviana, que maldizia a vida; a sua, com um prazer característico dos que são invejosos; a própria, por excesso de desprazer.
mas o que a mulher não percebia é que sua fumaça e sua maldade impregnavam o ar tanto quanto a si mesma. e, cada vez mais, a mulher acinzentava por dentro e por fora. enegrecia.
um dia, a mulher não apareceu. dizem que escureceu tão completamente que, à noite, sumiu. a noite a levou.
mas clara já estava longe.


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