23.7.09

FATALISMO

("...) quando toda decisão é difícil, nenhuma decisão é tomada. continuávamos a nos ver e dormir juntos e fazer planos para visitar paris no natal. a falta de decisão incorporava a esperança de que, não fazendo nada, outra pessoa pudesse tomar a decisão.
---o que você tem, quer conversar? eu não aguento mais essa situação, tô vendo nos seus olhos que algo está muito errado e você não quer dizer. eu não quero mais isso. foi assim que em 2004 ela perdeu um amor. com ele foi a cor das paredes de seu quarto e o sossego de sua avó. não tinha fome, só lágrimas. mas aprendeu a fazer do-in e não parava de se beliscar na tentativa de, com o dedo alfinetado no ponto certo, fazer a dor passar. rosto em lágrimas, sem chão, sapato, direção.
("...) não existem certas verdades básicas a serem apreendidas, fragmentos de visões que pudessem impedir alguns dos entusiasmos excessivos, a dor e o desapontamento amargo? não é uma ambição legítima se tornar sábio acerca do amor, tanto quanto alguém pode se tornar sábio acerca de dietas, morte ou dinheiro?
---ela não entendia nem aceitava. não conseguia pensar nela como um indivíduo e não como um subproduto rejeitado. estava sozinha. o presente estava degradado na história e na nostalgia. no amor, você é o que é. até que você se vê no outro e então o outro muda você. ela não sabia mais viver sem ele.
("...) nas semanas seguintes, insisti para que retornássemos a cinemas e restaurantes onde havíamos passado noites agradáveis. revisitei piadas de que havíamos rido juntos, readotei posições que nossos corpos um dia haviam moldado.
---não funcionou. o amor tinha acabado de verdade e não havia nada a fazer. ele, culpado, chorava para os amigos que também não podiam ajudar. então ele se afastou, passou uns meses na europa e guardou, bem fechadinha, aquela história. foi quando ela voltou a respirar, conheceu outras pessoas, voltou a fazer o que gostava. leu, ouviu muita música triste. depois do trabalho, caminhava pela paulista de ponta a ponta até se sentir melhor. no metrô, chorava compulsivamente. chegava em casa, tomava um banho e se encontrava com as amigas. no bar, ia para o banheiro e chorava mais. foi assim, dia a dia, que as lágrimas foram secando e ela foi recuperando a felicidade.
("...) ser amado por alguém é perceber o quanto eles partilham das mesmas necessidades dependentes da resolução do que nos atraiu a eles em primeiro lugar. não amaríamos se não houvesse carência dentro de nós, mas por paradoxo, somos ofendidos por uma carência semelhante no outro.
---o tempo foi passando, as coisas mudando. ela ganhou um livro muito especial de um amigo mais especial ainda. com o livro ela passou a entender sua história. chorou um bocado. algumas páginas quase não resistiram ao chorrilho. comprou um livro igual e deixou na portaria dele. deixou ali com um mensagem seca. e só foi saber que ele tinha lido, amado e chorado muito quando ela estava muitíssimo bem, de novo apaixonada. ele quis conversar, voltar atrás. não deu. ela já tinha encontrado uma outra parte.
("...) foi o beijo mais doce, tudo o que alguém deseja que um beijo possa ser. houve um leve roçar, tentativas suaves que secretavam o sabor único de nossas peles, isso antes que a pressão aumentasse, antes que nossos lábios se abrissem e depois tornassem a se juntar, bocas sem fôlego articulando desejo. apertou seu corpo mais ao meu, nossas pernas se enroscaram, tontos, desabamos no sofá, gargalhando, agarrando um ao outro.

*de trás pra frente (passando por elipse, contrações, medo da felicidade, confirmação do eu e fatalismo romântico), trechos do livro ensaios de amor, de alain de botton. na ordem certa, uma história que ficou guardada na estante e que hoje, cinco anos depois, abriu sem querer. numa tarde clichê, de frio e chuva.
**a foto foi tirada em bricklane, londres. no mesmo lugar onde a história (do livro) aconteceu.

Um comentário:

camila0209 disse...

CUUUUUUUUUUUUUUUUUURUUUUUCA
Eu lembro que me emprestou esse livro.
Sensacional!
Saudades!!!