29.11.09

UM AMOR ASSIM DELICADO


se eu não tiver um amor como o amor de um casal que eu paquero de longe, só com os olhos - e não com o par que observa, mas com os olhos que uso para leitura - nem conhecer o mundo todo vale a pena pra mim. porque cada pessoa tem sua lista de prazeres e felicidades (com ou sem ordem de acontecimentos) e, da minha, tanto faz parte viajar como ter esse amor (e várias outras coisas, claro). mas tem de ser como esse descrito cada vez mais lindamente por eles, que misturam palavras e deixam só de vez em quando um enxerido, como eu, entender o significado. 
e me sinto como aquelas senhorinhas de cidade de interior, que sentadas em bancos sob noite de estrelas, soltam, junto com seus suspiros de velhas, que o casal é tão bonito que dá até gosto de ver.

[yoko, a japa cheia de mistérios da minha classe, sabe também ler mão. e disse que minha linha do amor está bem fraquinha, mas que as linhas das mãos dela mudaram muito desde que ela chegou em londres, há um ano e meio. como os outros oráculos que consultei - ainda no brasil - me disseram que o amor que eu quero ainda vai demorar uns dois, três anos, só posso crer que joguei pedra na cruz... madredíos...]

DEVELOPING THE FUTURE





porque a orvá (que sempre fez) tá fazendo horrores com a sua mais nova lomo, porque a tha fez um post criativo e inspirador and last but not least porque ela ainda me deixa o seguinte comentário: "isa, tudo isso feito com uma mini diana. uma lominho titica que cabe no bolso e ainda dá a opção de 72 fotos pequenas em vez das 36 'normais'. compra aí e arrasa?"

outro dia, no soho, passei em frente à the lomography gallery store london. nem entrei. mas isso foi outro dia. antes do post. antes do comentário. antes do verbo comprar no imperativo. 

[sim, no imperativo. por que, não existe imperativo com ponto de interrogação? depende da sua vontade de comprar!]

27.11.09

BLOGANDO EM PAPEL JORNAL

sabe quantas vezes eu fui em old street e angel hoje procurar o the blog paper? sabe o quanto eu rodei nessas estações? sabe quantas vezes eu olhei descaradamente pro que as pessoas liam pra ver se era uma cópia (e pedir pra ver e sair correndo)? 
o mundo vira de ponta-cabeça - em plena época de extinção dos jornais impressos, inventam uma versão gratuita só com conteúdo de blogs, em londres - e eu continuo em pé de mãos vazias, como se nenhuma ordem tivesse sido subvertida?

[alice, se eu descobrir que você tem alguma coisa a ver com isso...]

EX-INPS, ATUAL NHS

segunda-feira, recebi pelo correio minha inscrição oficial no serviço nacional de saúde inglês, o NHS. já me achando a rainha da cocada preta com leite condensado, abro o evening stardard na quarta-feira e me sinto em pleno SUS: 
"a 10-year-old boy suffering a burst brain tumour died after being taken to three hospitals and waiting for seven hours for an ambulance transfer. the parentes were left watching helplessly amid erros by NHS staff".

não que dois joelhos ralados vão me levar à morte. nem mesmo uma orientação médica bem esquisita pra tratar candidíase (essa eu posto depois). é só mais uma da série 'é que nem mãe'

26.11.09

BAHIA, VERÃO DE 77

FALLING FOR LONDON

ela é tão ou mais estabanada do que eu e tem duas vezes o meu tamanho. não leva o menor jeito para esportes, mas como não me deixa nem sonhar sozinha, foi hoje correr comigo no regent's canal. então, pela primeira vez na vida, levei um tombo espetacular, daqueles que você se vê em câmera lenta e, antes de chegar ao chão, tem tempo até para pensar na forma em que irá cair. entre mortos e feridos, salvaram-se todos: caí de quatro - óbvio, considerando-se que ela me empurrou - e pelos machucados até leves, apoiei muito mais o corpo na base do joelho esquerdo, só um pouquinho em cima do direito e quase nada nas duas mãos, que ficaram imperceptivelmente raladas. o ipod, que voou longe e abriu na lateral, nem parou de funcionar. 
eu sentei no chão, levantei a calça até os joelhos e o menino que passava de bicicleta parou para perguntar o quanto sério tinha sido aquilo tudo - mas eu já tinha previsto que ele pararia nos segundos misteriosos de mil pensamentos entre a topada e o tombo. 
não deu outra. levantei, joguei a alice the goon no canal e continuei a corrida. 

[não fosse essa a história (e se a alice não ficasse me azarando em tudo o que é situação), nada mal um parzinho de joelhos ralados em londres, né, não?]

25.11.09

COISA FOFA, NÉ?


no começo eles não queriam falar de jeito nenhum. fugiam da foto feito bichos do mato. que já não são mais. em partes. tewari, são-paulino de 10 anos, tem até orkut. e tuacanuru, toda pintada de urucum, prefere a ciranda à ver corrida de buriti. cheguei cedo, pintei o corpo também, abracei quase todo mundo e até coloquei um colar com penas de ema pra ver se combinava comigo. lá pelas duas da tarde, debaixo do sol e em meio a uma selva urbana, senti minhas costas queimar. da última vez que quis fazer matéria no meio do mato, tava pegando uma cobra quando ela vomitou um rato no meu colo. mas dessa vez foi pior. eu, de todas as pessoas que conheço, sou a única que posso realmente dizer: arrumei sarna pra me coçar.

23.11.09

E ESSAS UNHAS TÃO GRANDES, SÃO PRA FAZER O QUE MELHOR?


nem que eu pudesse ler em movimento daria pra aproveitar o tempo no metrô de manhã - em hora de rush, transporte coletivo é que nem mãe. e embora os endereços ingleses sejam notoriamente muito melhor cobertos pela malha metroviária, elas - e não as mães, mas as mãos (das) inglesas, me despertam um sentimento novo, o de nojo. porque as unhas são exatamente como essas aí da imagem acima: compridas, pontiagudas e transparentes. ewww

e não estou botando reparo na questão de ir ou não à manicure-trabalho-escravo-coisa-de-país-subdesenvolvido. unhas grandes requerem cuidado e se são pontudas é porque são lixadas - e com essa finalidade. ou seja, elas acham bonito e ponto. e, ok, estou praticamente generalizando, mas é que não consigo ler em movimento...

[so, ju de faria, when it comes to the subject of fashion, i believe  you are truly allowed of wearing uggs (actually i think they are kind of  cute). but when it comes to the subject of lifestyle... don't even think of having those weird-long-shaped-nails, please!]

NOME DE ARTISTA

a partir do dia 1, a santa tá no anual da faap. :)

21.11.09

MEU MUNDO DE SÁBADO À TARDE

sábado é dia de ir à broadway market, em london fields (fechada para o mercado de rua), e comer hambúrguer de lamb. é indefectível: enquanto espera na maior das filas de barracas de comida, você observa o tiozinho cortando queijo, manuseando pão, pounds e pennies - tudo com as mesmas duas únicas mãos que deus lhe deu. ainda assim, você permanece ali. quando chega sua vez, o de lamb acabou. você come o de beef, porque não acordou mais cedo. 

mas antes, uma hoegaarden na praça.
e depois, café no l'eau a la bouche.

hoje, comprei meu primeiro romance em londres. eu pedi pelo nome e a dona disse que edição nova ela achava que não tinha; "mas talvez haja uma vintage". estava lá, na pequenina seção de usados da livraria.

[mercado inglês, cerveja belga, café francês, livro americano. mas nada virtual, tudo de verdade, ao alcance das duas mãos que deus me deu. limpas, embora cheirando de leve a marlboro brasileiro]

18.11.09

VIA TRANSCONTINENTAL


a história é mais ou menos como a do minhoco, aquele que beijou errado, beijou o rabo. mas a minha é ali do lado.
e porque é minha, não tem minhoco, e em vez de beijo, um remédio foi parar na boca - eu só posso ter ficado louca. era uma pílula de uso ginecológico e eu engoli. só então me dei conta do que fazer com o aplicador. do outro lado. não nesse, no outro.
passados dois minutos entre o fato, a percepção e o grito, corri pro banheiro pra devolver a pílula, goela acima. era a única atitude razoável, já que tudo ali parecia estar fora do lugar. depois, só o vazio: o estômago, a boca, um lado, o outro...

voltava tudo a ser como dantes no quartel de abrantes...

[aqui, esses remédios vêm em kits. então, se vc compra um creme, vem junto um comprimido DE TOMAR (esse foi o primeiro que eu usei). aí você compra um pra aplicar e vem creme e comprimido e aplicador... cafuso, cafuso]

foto via

15.11.09

ARTE POVERA


tudo depende da boa vontade do seu olhar: a farofa no apartamento aparentemente vazio do prédio da frente é, na verdade, uma instalação de arte povera

para ver mais sobre o tema, no acervo da tate  há obras de giuseppe penone. ah, na modern, tá? 

IERI, OGGI, DOMANI

ontem, depois de tantos dias de sol (e a poucos de completar um mês da minha chegada), perguntei (mais uma vez) pra claudia se londres é realmente assim, sunny, e o porquê, então, da fama de cidade chuvosa, cinzenta e foggy.

[a claudia é com quem divido o apartamento e uma pessoa muito paciente em relação a meus lapsos de memória/atenção]

segundo ela - que mora aqui há cinco anos - yeah, nós temos sol, e o ano todo. o fog era comum na época das abundantes fábricas de carvão. e a chuva, ai jesus, não lembro a explicação, pero que la hay, la hay e também tem relação com tempos de outrora. mas a claudia tá dormindo...]

[a foto é vista da janela da cozinha. e se eu não fosse tão ruinzinha, daria até pra ver o nome da rua ali na plaquinha verde]

10.11.09

DEVENDRA CORTESIA



via doisminutosemeio

AOS DEZ DIAS DO MÊS DE NOVEMBRO...


...do ano de mil novecentos e oitenta, nascia no município de monte alto, estado de são paulo, reino unido da grã bretanha, a mezzo italiana mezzo brasiliana criatura de deus e do diabo (que é ele quem põe a pimenta, quer se queira, quer não) chamada thais caramico (desta certidão não constam registros gregos, por isso a exclusão do 'helena'). 
aos dez dias do mês de novembro do ano de dois mil e nove, thais caramico, na condição de ré, meliante e aniversariante (até a virada da noite ela já se enquadrou nas três categorias, com certeza) já ganhou dezenas de beijos e abraços, um bolo surpresa com parabéns cantado por várias editorias (quem mais, sem ser chefe - ou seja, sem ser por obrigação - consegue tal façanha?) e ainda vai a outros eventos deliciosos. sempre com amigos. 
de fora dos acontecimentos por motivo de força maior, a escrivinhadora (na função de escrevente) lavra a ocorrência com objetivo apenas de deixar registrado o fato de que se sente furtada de compartilhar o dia de hoje com a supracitada amiga que tanto ama.

[mas meu parabéns de longe, é de londres. eu e toda SUA cidade te desejamos o melhor aniversário do mundo e os melhores 29 anos de todos que você já teve!!!!!]

9.11.09

HAIR TRENDS: (NOT A) BALLERINA

hoje, só hoje, eu queria ter cabelo bem comprido pra fazer um coque baixo e de lado, igualzinho o da menina linda que esperava o ônibus em frente à gazeta.
p.s: a foto da princesa léia é mera alegoria. é que quando tentei explicar pro ricardo como era o coque, ele logo disse: já sei! que nem a princesa léia.

ahã... igualzinho, ri.

6.11.09

A TONTA QUE ANDA ATRÁS

devem existir zilhões de explicações sobre o medo. a que eu mais gosto foi dita pela minha mãe semana passada - mas só porque se aplicava exatamente ao meu caso. "algumas pessoas se deixam dominar pelo medo, outras, atacam". eu estou no primeiro seguimento de pessoas. quer ver?

- oi, onde eu pergunto?
- pergunta o que?
- sobre comida.
- ah, vai no caixa.

escrevi em português que é pra dar a dimensão do ridículo. a diferença entre ask e order é uma coisa simples e óbvia pra quem... come. e eu como, desde que me conheço por gente. só que o fato de entrar sozinha num pub cheio de ingleses descolex me deixou tão travada, tão sem jeito, tão desengonçada, que não deu outra. 
algumas vezes isso rende umas boas risadas - como hoje, toda vez que lembro. noutras, vira uma bola de neve (quanto mais medo, mais tontería, quanto mais tontería, mais medo). 'a tonta que anda atrás', na ótima imagem da tha. tipo o joão bobo. não, tipo aquela personagem do popeye, alice the goon. yeap, that's me when my afrai... oops fear is around. [come on, goon, cut it out]

SEGURA A ESTATUETA

as estátuas mais pornográficas do mundo. vi na @regianeteixeira, que viu no pophangover.

TALKING TO PAUL AUSTER

ontem fui ver 'talking to strangers', da sophie calle na whitechapel gallery. eu não tinha visto 'take care of yourself', anotei um monte de coisa, amei. mas quando subi e vi 'gotham handbook', de 1994, que ela fez em parceria com paul auster... 

'gotham handbook - personal instructions for s.c. on how to improve life on nyc (because she asked...)' é a condição do escritor para aceitar a um pedido de sophie. e quatro passos explicativos do que ela tem que fazer - em textos simples, irônicos e divertidos. 

1. ajudar mendigos dando sanduíches levados de casa e cigarros
2. sorrir para pessoas na rua
3. manter conversações com estranhos
4. eleger um lugar público, decorá-lo e frenquentá-lo durante alguns dias (ela elegeu a cabine telefônica da foto acima).

[mas não foi só porque achei legal, criativo e dei risada que gostei da exposição. 'da mão para a boca' foi um livro de que gostei muito, fez um sentido enorme na minha vida e tinha uma frase escrita especialmente para mim. e então, ontem, bingo!, aconteceu de novo. paul auster me escreveu outra frase:

"i'm not asking you to reinvent the world. i just want you to pay attention to it, to think about the things around you more than you think about yourself. at least while you are outside walking down the street on your way from here to there"]


CINCO BISTRÔ NO PALADAR


sair no caderno que você lê todas as quintas, religiosamente, foi muito bom.

nega, ontem você fez muita falta. para rir, miar, torcer. mas você estava aqui, naquele lugar de sempre, do lado esquerdo.

5.11.09

SAUDADE.CO.UK - PILOTO

hoje é um dia muito importante pra manu. thais tá lá, sei que tem um monte de gente amiga, mas eu queria estar também. e ficarmos as três bem juntas, nem que fosse só pra tirar uma foto. nem que fosse uma sem abraço (como essa aí da festa), que o que vale é o cariño.
merda!

[não se enganem, a saudade é grande, mas não me deixa reclamar. desejo merda porque meu piloto tem final feliz: muitas pessoas vão prestigiar a manu e o restaurante vai lotar, assim como as peças de teatro do século... (não sei o século), que deram origem à expressão. 

que desejar merda não era diretamente desejar sorte e, sim, público. cavalos eram o meio de locomoção das pessoas. muitas pessoas no teatro, muito cavalo na rua e... merda!]

PREMISSA (OU ARGUMENTO?)


não é porque aqui é londres e lá brasil que não vai rolar saudade. ir ao banheiro todo dia, por exemplo, é do que eu mais sinto falta além mar. o raio do actívia é internacional, mas meu trânsito intestinal, local.
aí tem pessoas e minipessoas (que vão crescer rápido e não vão lembrar de você). tem aquelas comidas que, só por não estarem ao alcance, parecem as melhores do mundo. tem as comidas boas mesmo (coxinha, pizza da esquina de casa). tem a casa, que já não tem e sabe-se lá se vai ter um dia de volta. sabe-se lá se vai querer ter. tem a praia, o verão, as lembranças que, já disse alguém, são sempre mais felizes do que foram quando eram fatos. e tem mais um monte de coisa que se eu fosse capaz de nomear agora nem teria vindo, tal seria o apego. e não é. assim como não sou roteirista, nem aspirante a. cada um com seu cada qual. eu sou escrivinhadora. de matéria, post, bobagem, carta de amor (é!).

4.11.09

CORREIO ELEGANTE

leo, 11 anos, procura uma namorada. tem o focinho da baleia - que é castrada, coitada, mas topa conhecer o amigo. a cantada fina chegou na caixa da madrinha luorvat. coisa mais fofa. aprovei o genro.

3.11.09

HURRY UP

tem uma senhora de olhos puxados e filho pequeno, aqui no meu prédio, com quem quase tive o prazer de compartilhar o silêncio à espera do elevador. mas porque crianças orientais são irresistíveis, tirei o olhar do local reservado ao constrangimento e me pus, leve sorriso nos lábios, a observar o menino. então a senhora virou para mim e perguntou se eu tinha um daqueles. 
hmm.
nos minutos seguintes, travamos um diálogo que misturava inglês, uma outra língua que o puxado dos olhos não identificava e gestos que remetiam à crianças, barrigas, número de filhos, etc. ela cismou que eu deveria ter - e logo - meu próprio filho. hurry up, repetia, a cada fim de frase multi étnica. 
eu juro que tentei. disse que, sim, quero ter um dia. "tenha agora, hurry up". disse que não tinha filhos, mas tinha sobrinhos. "você tem que ter SEUS filhos, hurry up". disse que ainda não tinha marido. "procura na internet, hurry up". disse que tinha 34 anos". ainda dá tempo, hurry up". consenti, já que não tinha mais nada a dizer. "minha irmã acabou de ter o terceiro, hurry up".

já no meu andar (o segundo), a conversa que deveria chegar ao fim, chegou ao ápice. enquanto a miniatura oriental mantinha a porta do elevador aberta, a senhora olhou para mim e disse: quer ajuda?

o que, na verdade, ela estava me oferecendo?

1. conexão de internet, computador, sites de relacionamento
2. o filho dela
3. uma noite com o marido dela
4. um dos filhos da irmã dela

[e, assim, uma senhora maluca, que mora no quarto andar do flat 7, caliban tower, purcell street, inaugurou o primeiro post de uma série de muitos sobre londres. 16 days later. it was about time. hurry up]