
diante da mãe, da
bagunça, da iminência do castigo, prometeu nunca mais fazer. o que ninguém sabia era que, em seu mundo particular, as regras eram outras. das que diziam respeito ao ocorrido: "não mentir" e "meu pensamento vale mais que mil palavras". prometeu que nunca mais faria; disse '
bagunça', pensou 'promessas'.
a contradição nem lhe passou pela cabeça porque a palavra ainda não fazia parte do seu vocabulário de menina. nada na vida é mais contraditório do que viver - e isso aprendeu ainda antes de falar.
um dia, foi à médica mostrar
manchinhas brancas no braço bronzeado. não eram micose ou outra doença. algumas partes da pele estavam ressecadas demais para responder ao estímulo do sol, que era ao mesmo tempo causa e solução do problema. tinha que continuar tomando sol, mas com
protetor e cuidado para não bronzear. claro que a explicação médica fazia mais sentido do que sua interpretação, mas preferia concentrar seu olhar no contraditório. pensou que braço e sol sofriam daquele mal estranho de amor e ódio.
duvidou que existisse tal
fenômeno na relação entre as pessoas. não queria ter que adicionar essa regra cruel à sua lista. mas então foi invadida por uma sensação ruim de descoberta: algumas pessoas só sabem sentir assim. e quanto mais amam, mais odeiam. como o sol, que quanto mais bronzeia, mais causa manchas.
desejou que houvesse um filtro de
proteção para esse sentimento duplo. mas depois de
refletir bastante, constatou, com toda a tristeza do mundo, não ser possível. algumas peles são tão sensíveis ao sol que nem bloqueador dá conta. a única solução para que não fiquem manchadas é evitar ao máximo a exposição.
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