
parte I
hoje é sábado, amanhã é domingo
e eu estou no jornal, de plantão
os amigos tomam cerveja no bar
e eu trabalho forçado na redação
hoje é sábado, amanhã é domingo
e o tempo aqui é moroso
é muita maldade o sol brilhar lá fora
mas por via das dúvidas, livrai-me meu deus da morte de um famoso.
hoje é sábado, amanhã é domingo
amanhã estou novamente na redação
hoje é que é dia de tomar várias
o dia é sábado (e eu aqui de plantão)
impossível fugir a essa dura realidade
neste momento os bares estão repletos de homens
todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
todos os maridos estão funcionando regularmente
todas as mulheres estão atentas
porque hoje é sábado (e eu aqui de plantão)
parte II
neste momento há um casamento
porque hoje é meu plantão
hoje há um divórcio e um violamento
porque hoje é meu plantão
hoje há um rico que se mata
porque hoje é meu plantão
há um incesto e uma regata
porque hoje é meu plantão
há um espetáculo de gala
porque hoje é meu plantão
há uma mulher que apanha e cala
porque hoje é meu plantão
há um renovar-se de esperanças
porque hoje é meu plantão
há uma profunda discordância
porque hoje é meu plantão
há um sedutor que tomba morto
porque hoje é meu plantão
há um grande espírito de porco
porque hoje é meu plantão
há uma mulher que vira homem
porque hoje é meu plantão
há criancinhas que não comem
porque hoje é meu plantão
há um piquenique de políticos
porque hoje é meu plantão
há um grande acréscimo de sífilis
porque hoje é meu plantão
há um ariano e uma mulata
porque hoje é meu plantão
há uma tensão inusitada
porque hoje é meu plantão
há adolescências seminuas
porque hoje é meu plantão
há um vampiro pelas ruas
porque hoje é meu plantão
há um grande aumento no consumo
porque hoje é meu plantão
há um noivo louco de ciúme
porque hoje é meu plantão
há um garden-party na cadeia
porque hoje é meu plantão
há uma impassível lua cheia
porque hoje é meu plantão
há damas de todas as classes
porque hoje é meu plantão
umas difíceis, outras fáceis
porque hoje é meu plantão
há um beber e um dar sem conta
porque hoje é meu plantão
há uma infeliz que vai de tonta
porque hoje é meu plantão
há um padre passando à paisana
porque hoje é meu plantão
há um frenesi de dar banana
porque hoje é meu plantão
há a sensação angustiante
porque hoje é meu plantão
de uma mulher dentro de um homem
porque hoje é meu plantão
há uma comemoração fantástica
porque hoje é meu plantão
da primeira cirurgia plástica
porque hoje é meu plantão
e dando os trâmites por findos
porque acabou por hoje meu plantão
não há a perspectiva de domingo
porque amanhã também é meu plantão
parte III
por todas essas razões deveríamos ter sido mesmo desobrigados a estudar quatro anos para conseguir um diploma que não vale nada.
de fato, não havia nada que aprender na faculdade.
e depois, de aulas inúteis e professores recalcados;
e depois, de horas perdidas e do dinheiro jogado fora;
melhor fosse que gastássemos o tempo de não aprendizado bebendo no bar.
na verdade, o diploma não era necessário.
nem tu, assessor, jornalista que não trabalha na redação, precisava do papel.
tu, que não faz plantão de fim de semana.
bem procedeste tu que escolheste ganhar dinheiro.
tantos anos lutou a classe por melhores condições de trabalho.
descansasse o leitor e simplesmente não faríamos plantões.
seríamos talvez algo melhor nas palavras imbecis de um presidente ignorante.
não viveríamos da degola de celebridades a, b e c.
não seríamos plantonistas de guerras idiotas e políticos corruptos.
não sofreríamos males da falta da cerveja do sábado nem desejaríamos o salário do próximo
não teríamos horas mal dormidas nem que reaprender a ortografia.
seria indizível a beleza e a harmonia dos que fossem jornalistas pelo talento - e não pelo diploma.
a paz e o poder maior das palavras e dos editores de vocação
a pureza maior do instinto de verdadeiros focas e não de novatos em cópula com superiores.
ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos;
precisamos encarar o problema das colocações de vírgulas estéticas
ser sociais, cultivar hábitos, checar agências sem vontade e até cozinhar sem vontade.
tudo isso porque o editor cismou em que trabalhássemos no fim de semana...
e para não ficar com as vastas mãos abanando
resolveu fazer o repórter à sua imagem e semelhança
possivelmente, isto é, muito provavelmente
porque hoje também é seu plantão
(e não é que tá quase ipsis literis com
o dia da criação? vinicius era mesmo um gênio)