
eu li o texto abaixo em
junho, quando foi publicado (no
dusinfernos) e achei muito engraçado. mas só tem graça se for lido até o fim. comprido (e olha que eu editei), mas juro que vale a pena!
"nos idos dos anos 80, eu tinha um sobretudo de lã preto que comprei em um brechó e simplesmente era um sucesso. todo mundo, até no satã, o templo do sobretudo da época, elogiava meu sobretudo. era incrível como, ao colocar aquele sobretudo preto, me tornava uma pessoa automaticamente elegante.
no final dessa mesma década ganhei meu presente de cinderela, meu sapatinho de cristal (ou rubi), o sonho de toda uma geração: uma viagem a londres, a cidade do sobretudo preto (pelo menos no meu imaginário).
naquela época não eram coisas simples assim viagens internacionais - tudo bem que já tinha avião. mas notícias de deportação de estrangeiros do terceiro mundo, de desconfiança por parte da imigração, me fizeram pagar um curso de inglês meio caro (para mim, à época) e meio a contragosto. bom, essa política de portas fechadas não mudou nada, aliás, piorou.
também não se ia direto para londres, quer dizer, gente de classe média, como eu, pagava mais barato indo até barajas, em madri (esse lance de bruxelas é muito anos 90) e ali era a primeira fronteira. você podia (pode) ficar por ali, como tinha acontecido com um grande amigo meu (por isso o curso de inglês, por isso o europass, por isso um gasto absurdo... para conhecer uma cidade como turista).
ufa, passei sem problemas, disse que ia para londres e eles, acho, pensaram que a aduana de lá me colocaria nos eixos se eu estivesse tentando entrar como imigrante ilegal.
lembro de pegar um trem e ir direto para paris. passado, nos dois sentidos, o meu primeiro fim de semana em paris, parto para a meca da modernidade: londres. era inverno e, como todos dizem que temos que nos apresentar bem vestidos na imigração, vesti meu sobretudo. mas na imigração não pararam de me fazer perguntas. mostrei o curso, mostrei o lugar em que ia ficar, mas eles olhavam muito desconfiados - e eu sem entender muito. depois de um bom tempo em dover, me liberaram, com visto de um mês - o normal seria um de seis. fiquei intrigado com o tratamento, além de achar absurdo todos os mecanismos e jogos para entrar em um país (e de ter aceitado o jogo). me senti diminuído.
no segundo dia, passeando pela cidade, vejo que meu sobretudo é idêntico ao de muitos mendigos.
me apresentei como mendigo para as autoridades da imigração, apesar de jurar que vestia um glamuroso look de algum filme dos anos 20."