
meio dia:
dormindo na sala. toca o interfone, o celular e o telefone, ao mesmo tempo. atendo o interfone e está lá embaixo o marido da pessoa pra quem já dei o colchão, agora para pegar a cama. atendo também o telefone. a pessoa não só não veio junto como, diferentemente do combinado, não me ligou antes para acertarmos um horário. "ah, esqueci". fico puta. mas como assim? hoje é sábado, recebi ontem umas amigas e dormi de madrugada, estou a oito dias da viagem, a casa está cenário de guerra - e pelo visto tenho que arrumar na hora que a pessoa quer e sem que me ajude (é preciso tirar a bicicleta, o tripé, os quadros do meio do caminho para que a cama passe). "poxa, meu, a gente combinou, não é justo isso". desligo, capitulando.
sobe o cônjuge. sozinho, sem ajudante. pra que eu carregue a cama de madeira maciça com ele do quarto até o elevador. já estou puta. fico mais. ainda assim, capitulo. de novo. mas ele vai embora.
liga a pessoa. diz que o cônjuge está muito chateado comigo. "oi?" quer dizer, eu dou o que é meu e ainda preciso estar pronta, no horário estabelecido pelos outros e disposta a fazer um esforço físico monumental. como se não bastasse, "vou te devolver o colchão e as gavetas. não quero mais a cama". não se engane, penso. a inversão de valores não se dá por acaso. ela acontece em função da sua subserviência. it's all about you.
a oito dias, repito, da viagem. a quatro dias da mudança - com cama - da thais pra cá. não seja por isso. liguei pro lar escola são francisco e eles vêm buscar, na terça-feira, a cama, o colchão e as gavetas. era o que eu devia ter feito desde o começo.
uma hora da tarde.
ligo pro cabeleireiro e marco hora para uma e quarenta. tomo banho e saio correndo, literalmente, de casa. não sei por que mas, na minha cabeça, o cabeleireiro não deve esperar cinco minutos do meu atraso. chego lá, 1:40 sharp, ele está atendendo outra pessoa. sento, e pego o celular para contar o fato bizarro anterior para a thais, enquanto espero. dez minutos depois, quando olho, ele está prestes a atender uma terceira pessoa. "e eu?". num tom de completo afetamento e falta de educação, ouço um "ué, você tava no telefone, eu tava esperando você desligar". "oi?". achei que eu estivesse no telefone esperando ele atender outra pessoa no meu horário. e que ele fosse gentilmente colocar a mão no meu ombro e me avisar que estava livre. sento, olho no espelho e digo "isso não vai dar certo" e levanto. quem é mesmo o prestador de serviço? e o cliente? e a educação, o que é mesmo? mas só penso. aprendi, uma hora atrás, que não adianta tentar explicar algo que, muito provavelmente, é falha minha. it's all about me.
[nada que o tomás, daqui meia hora, não vá fazer parecer bobagem e num passado muito muito distante. it's all about love]