10.4.11

VOLVER - II

Stonehenge

Voltei. E vim morar, provisoriamente, na casa da Maria. Não me perco em ir e voltar do metrô mas pro outro lado, onde tem uma rua principal, eu só tinha ido com ela. Há três meses (ok, poderia ter sido há três dias e eu não ia saber da mesma forma). A questão é que eu decorei a ida (turn left, left again and then turn right) e, na volta, segurando seis pesadas sacolas de supermercado, eu via várias ruas iguais que poderiam ser a que eu teria que virar para, virando de novo, virar mais uma vez. Eu não prestei atenção na ida e a mesma fórmula, óbvio, não funcionava sem um referencial. Mas, em Londres, isso nunca foi problema. As pessoas sempre ajudam. Problema é quando as pessoas até querem ajudar mas não tem a mínima noção de onde a tal rua seja.
Eu andava, andava e andava por entre aquelas ruelas cheias de casas que mais pareciam um labirinto sob o sol. Tentei ligar pra Maria, nada. Então parei, pus as compras no chão, acendi um cigarro e peguei o celular pra procurar no google maps. Estaria tudo resolvido, não fosse o sinal de internet fraco.
Aí que passa o cara. Negão, todo cheio de estilo, andando devagar, fone de ouvido. Eu abordo. Ele pergunta minha nacionalidade, respondo, e ele, em português de Portugal (que pode ser de Cabo Verde, Moçambique, Angola, etc), diz:

- Adoro o Brasil! Eu tenho uns mano lá!

Enquanto ele tenta, em vão, procurar no celular dele (eu não falei nada da falta de sinal; meu iPhone é velho, o dele é 4, vai que funciona...), pergunta de onde eu sou.

- São Paulo, digo.
- Zona Leste? Moóca? ele, empolgado.
- Não...
- Zona Norte? ainda empolgado. Eu, pensando 'Putz, ele vai me achar uma patricinha de merda'. Faço cara de paisagem e digo
- Zona Sul. No que ele:
- Capão Redondo? Nossa, mas é pesado lá, hein?

[sensacional]

Nessas, nada do celular funcionar. Conto pra ele que, em relação ao metrô (e não ao supermercado) a rua é bem em frente à saída do parque (- qual saída? tem três...) e ele diz, com cara de obviedade, que o parque é logo ali. Eu explico que, sim, eu estava andando em direção ao parque (por sugestão de uma moça) mas não sabia se era tão perto assim. Ele se oferece para ir comigo e me ajuda a levar as sacolas. Demos só dez passos, JURO POR DEUS, e chegamos na tal da rua. Nunca passei tanta vergonha na minha vida. Ri tanto que andei do número 50 ao 25 sem perceber que já tinha passado o 47 fazia tempo.

Na despedida, ele reforçou que gostava muito do Brasil. "Inclusive eu tô ouvindo Facção Central agora!"

[quando o oitavo passante disse que não tinha ideia de onde era a rua, eu quase perdi a fé. bobagem. porque é aquilo, em londres, sempre tem dessas pessoas incríveis no meio do caminho. mas há, também, que se considerar as pedras]

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2 comentários:

Amanda disse...

Ahahaha! Ta vendo, se vc não tivesse se perdido, não ia encontrar uma figura dessas! Por isso que viajar é bom, pq a gente sai do nosso conforto, se perde, se confunde e precisa mais ter contato com outras pessoas.

Isabela disse...

É o melhor mesmo! Adoro!
Amanda, deixei um comentário no blog da Luci, não sei se vc viu, mas falei pra ela que quero muito conhecer vocês ao vivo este ano! Somewhere in France, claro - a não ser que as duas venham pra cá (eba tb!).
Beijos!