30.11.11

DO SANTO DE CASA QUE FAZ MILAGRE



A Mentira

Há anos meu pai usa a mesma lapiseira. Simples, nada de mais, ela é da marca Pentel, grafite 0.9mm e é cor de camelo. Simples, nada de mais, mas dele. Minha mãe tem uma lapiseira igual e até eu já tive (joguei fora depois que comi aquela tampinha de trás) porque meu pai costumava nos presentear com objetos iguais aos seus, para que a gente não pegasse os dele. Ainda assim, eu peguei. Não devolvi. Trouxe pro quarto. E tive um surto de amnésia.
O que sei é que, ontem, vi a lapiseira no quarto, pensei: Nossa, o que essa lapiseira está fazendo aqui? e passou.

- Você pegou minha lapiseira?
- Não peguei, mas ela apareceu no meu quarto.
- Ah, ela apareceu no seu quarto.
- Olha, você sabe, eu não minto.

Eu realmente não estava mentindo. Pelo menos, não deliberadamente. Mas me sentia culpada. E passei o pente fino no quarto, em busca da lapiseira cor de camelo.

Nada.

***

O Santo

A versão da minha família para o santo dos objetos perdidos - o São Longuinho - é São Mindinho. Desde pequena faço (fazemos) simpatia pra ele - um santo que nem a igreja nem o Google conhecem e, sabe-se lá por que, batizado com o apelido do dedo mínimo. Mas um santo-não-santo que não falha nunca.

"São Mindinho, São Mindinho, se eu achar dou três pulinhos".

No que fui até a sala, achei o camelo da lapiseira camuflado no mármore do chão e lembrei, não do momento do furto, mas de quando levei o objeto furtado para lá. Eu tinha mentido.

Dei três pulinhos, devolvi a lapiseira e me fiz de rogada.

***

A Conclusão

Se o não-santo perdoa a não-mentira, quem sou eu pra não-concordar?

29.11.11

DESEMBATUMANDO A VIDA

1984. Eu tinha nove anos
Acabei de assar um bolo que tinha tudo pra embatumar. Tinha todo - todo um passado de bolos de chocolate embatumados, mas só dos que levam leite na receita. Porque o Nega Maluca, que leva água e óleo, sobe, fica fofo, acaba, tudo num minuto. Esse eu faço desde criança e sei de cor. Mas no último sábado, ele me deixou meio frustrada. Enjoada, talvez - e não porque eu tivesse comido metade, ainda quente, de uma vez só.

[só sabe fazer bolo de chocolate quem é compulsivo para comê-lo. é uma questão de paixão]

Enjoada. Não era aquele o bolo que eu queria comer. Então, no domingo, pra minha sucessão de sortes, tinha um bolo enorme de chocolate em cima da mesa. Com cobertura, recheio e até uma - acho - canelinha salpicada. Perfeito. Só podia ser daquele tipo que leva leite na massa. O tipo que, nas minhas mãos, embatuma.

[mas eu sou teimosa]

Hoje, juntei os ingredientes, misturei tudo como mandava a receita (pelo menos da segunda vez), pus no forno, assou, admirei, pus na barriga. Pelando. Porque meu bolo, meu bolo de chocolate do tipo que leva leite na receita, ficou perfeito. Fofíssimo. Bolo de boleira.
Que, de agora em diante, é assim. Eu saio desembatumando tudo o que vem pela frente. Seja coisa, seja gente.

21.11.11

'FRONTERA'






"Using reduced but always drastic means, Teresa Margolles (born in Culiacán, Mexico, in 1963) creates extremely poignant works of art. At first glance, her works often seem to be minimalist in their form. Viewers only discover that they are deeply emotional and dramatic when they become aware of the rigorous realism in the choice of material. Margolles uses substances such as blood, body fat or even water used to wash corpses not only symbolically, but also palpably, attacking human being's fears of contact in a subtle way."

mais

BLITZKRIEG:


en.Wikipedia:  (German, "lightning war) is an anglicized word describing all-mechanized force concentration of tanks, infantry, artillery and air power, concentrating overwhelming force at high speed to break through enemy lines, and, once the latter is broken, proceeding without regard to its flank.

pt.Wikipedia: (termo alemão para 'guerra-relâmpago") foi uma doutrina militar operacional que consistia em utilizar forças móveis em ataques rápidos e de surpresa, com o intuito de evitar que as forças inimigas tivessem tempo de organizar a defesa. Seus três elementos essenciais eram o efeito surpresa, a rapidez da manobra e a brutalidade do ataque, e seus objetivos principais eram a desmoralização do inimigo e a desorganização de suas forças (paralisando os centros de controle). 

Imagem: Catedral de St. Paul's, Londres, no começo de novembro, durante o Occupy London

1.11.11

ELABORANDO

"Is" no sentido de "estar" e não de "ser". Essa falta de especificidade linguística inglesa, viu, vou te contar...


Cada um elabora suas questões da forma que melhor entende, convém, sabe, PODE. Desde que cheguei de Londres - desta vez por um tempo maior do que os costumeiros três meses, daí o drama - tenho feito coisas estranhíssimas como forma de elaboração (antes de me julgar, vale lembrar que tem gente que nem elabora, meaning to take it out on someone).

- Eu praticamente não durmo. A privação do sono voluntário já vem de Londres e a causa é - dãh, óbvio - ansiedade. O foda é que nem o santo Rivotril, padroeiro da minha mãe, tem surtido grandes efeitos.

- Cheguei sábado cedinho e comecei a desfazer as 12 malas (14, mas duas eram da minha mãe). Não eram nem dez da manhã e, enquanto eu tirava roupas da mala na sala, eu separava por cor, levava para a área de serviço e colocava dentro da máquina. Eu estava lavando roupa.

- No meio das roupas encontrava objetos. Se eram de decoração, como um quadro, eu parava, abria um armário só de ferramentas e procurava o martelo e o prego certos para pendurar na parede. Eu separava todos os potinhos vintage, levava para o banheiro e organizava com todos os meus produtos de beleza. Eu arrumava o banheiro, o quarto, as bijus, as gavetas, os casacos, os óculos, os livros, as revistas... Tudo com perfeição. E desfazendo mala.

- Comi tanto no almoço que achei que fosse dormir à tarde. Não existia à tarde, cansaço, cama - a não ser para separar roupas. Pendurei todos os casacos de inverno e fiz uma mala com jumpers, cardigans e meias para serem lavados só depois.

- Madrugada. Tentei computador, TV, nada. Rivotril. Só durou até...

- Seis da manhã. Minha cabeça fritava com tudo o que eu não tinha feito em Londres. Peguei um papel, escrevi, para não esquecer e já joguei fora porque não faz o mínimo sentido. Levantei e comecei a... passar roupa. Ouvindo música. Foi a forma que encontrei de parar de pensar. E pondo mais roupa para lavar, e separando por cores, e arrumando o quarto e fazendo novas listas, estas do Brasil. Noite/madrugada. Idem à anterior. Rivotril. Efeito curto.

- Segunda. Dia útil. Posso ir à lojas que preciso, buscar meus móveis, comprar a linha daquela cor para costurar aquela bolsa... Noite/madrugada. Idem à anterior. Rivotril. Efeito curto.

- Acordo hoje pensando: preciso levantar, não posso acordar às 11 da manhã, tenho muito o que fazer... Não eram nem 7, a Nilda não tinha nem chegado, não tinha café da manhã. Liguei o computador e resolvi escrever o post que antecede (o daí debaixo) este. Escrever. Minha forma natural de elaboração. Esta é a segunda tentativa. As coisas parecem estar voltando ao ritmo. OCD dando trégua (se bem que pedi pra Nilda me deixar ter um aspirador só pra mim).

- O resultado, além de estafa física e mental, é que não liguei para nenhum amigo, NENHUM. Não porque eu seja uma anta e tenha trazido meu iPhone locked desta vez (ainda existe telefone fixo). Não porque eu não queira, longe disso. Mas porque minha cabeça não para, e, por isso, simplesmente não consigo. Preciso relaxar. E, escrever, pra mim, sempre foi melhor que massagem.

[neste caso vale aliar os dois]

E VOCÊ AINDA FICA SABENDO QUE HEMORROIDA PERDEU O ACENTO

A tradução é outra, mas vai dizer que o phrasal verb 'pile out' não soa perfeito pra um caso de hemorroida aguda? Soa, eu asseguro. Chamemos de falso cognato.


No último mês (ou pouco mais do que isso) foram muitos os excessos e estresses. Bons estresses, mas, ainda. Depois de três décadas e meia de vida você já conhece seus pontos fracos, sabe onde o corpo vai doer, sabe que parte dele vai gritar fisicamente em busca de arrego emocional. Ou não, ainda.

Há uns cinco anos, tive o primeiro (e, não fosse a frase acima, diria único) problema de hemorroida na vida. Na ocasião, a médica até falou que aquilo não era exatamente hemorroida, mas eu gosto de drama, foi assim que encarei. A consulta, com uma proctologista - especialista na área do meu problema - (você também se pergunta o critério da escolha da especialização dos médicos?), foi no Brasil, e o tratamento, uma pomadinha que eu tinha que passar só por fora, como se fosse assadura de nenê (se você não sabe - nem tem por que saber - ela vem com um aplicador anal). E eu achando mesmo que tinha tido hemorroida... Claro, doía, tinha uma inflamação ali. Mas nada que meio tubo de pomada e calcinhas tipo shorts não pusessem fim à questão.

Então, setembro londrino chegou, e, com ele, um turbilhão de acontecimentos (repito, 99% incríveis), dentre eles a visita da Lu, que coincidiu com a estada, na casa em que eu estava morando (de apenas um banheiro) de uma dupla de chineses que tomava banho de uma hora cada um , pela manhã. Aí, nego, o bicho pegou. Porque na falta de mamão papaya com farelo de aveia, eu tomo laxante. Just do the math. 

É claro que eu tinha uma pomada brasileira. Minha caixa de remédios se equipara à minha gaveta de calcinhas (se você segue este blog, sabe do que estou falando). E o problema nem chegou à Berlim, onde eu e a Lu fizemos praticamente o caminho de Compostela, de tanto andar (é duro andar com quase-hemorroidas, viu...)

Eis que chega a semana derradeira em Londres. Com ela, mãe, irmão, a entrevista mais incrível que já fiz na vida e um romance inglês (de viver, não de ler). Ah, claro, compras, comida, pimenta, noites insones (por motivos bons e ruins). Uns dias antes, até tinha ido ao hospital por causa de uma infecção na garganta. Me deixa reformular: meu ouvido doía muito, assim como meu corpo, mas só fui pro hospital por insistência de uma amiga. Chegando lá, eu soube que estava com pus na garganta, febre e tinha que tomar antibiótico por uma semana. Passou em dois dias, sem grandes estresses ou dramas. Já a hemorroida...

Repare que já não é mais uma quase-hemorroida. Foram 5 tubos, usados COM aplicador, de uma pomada inglesa comprada na Boots, sem prescrição, ou seja, quase inócua. A coisa só ficava pior. E doía tanto, assustava tanto, crescia tanto (sorry, guys) que nem a presença da minha mãe aliviava o fato. 

Cheguei no Brasil no sábado e fui comprar a pomada brasileira, já que, não, eu não ia no pronto socorro - eu não ia ficar à vontade com médicos cuja especialização não era anal por opção.

Antes, vamos às diferenças de nomenclatura. Em inglês, haemorrhoids também pode ser chamada de pile. E mesmo que para um nativo as duas palavras soem da mesma forma, preferi pedir, baixinho, pomada pra pilha (ou qualquer outro sinônimo dentre as várias que essa palavra tem). E a gentilíssima atendente da Boots me  indicou um tubinho chamado sutilmente de ANUSOL. 

Como aqui no Brasil a pomada chama XYLOPROCT, pedi no balcão da Droga SP, pelo nome, em volume normal. A moça vira pra mim e pergunta: é um colírio? Já cansada de tanta ladainha, respondo, no mesmo volume, diante de quem quisesse ouvir "Não, é uma pomada para hemorroida". E fim de papo. Que nem na médica especialista em cus acho que vou precisar ir. 

[porque, pra de fato ter sentido, eu tinha que usar pelo menos uma vez a palavra cu neste texto, né não?]