25.6.12

QUANTO DESSERVIÇO, ELBA RAMALHO...




Um programa de TV que tem me emocionado muito ultimamente é o Viver com Fé, do GNT. Apresentado, produzido e acho que (pelo menos parcialmente) idealizado pela atriz Cissa Guimarães, o programa é divido em episódios semanais, de meia hora, em que duas pessoas (conhecidas ou não do público) contam histórias de seus caminhos espirituais. A religião católica esteve presente mais de uma vez, o que, a princípio, me incomodou - eu acredito no conceito de que os dogmas (como o catolicismo) foram criados justamente para afastar as pessoas da espiritualidade, para atingir seus maiores interesses, o poder e o dinheiro. Mas procurei baixar meu julgamento e assisti cada um desses episódios até o fim. E me emocionei. Porque pensei que apesar do catolicismo ter tudo isso, pode não ser apenas isso - pode ter uma origem que desconheço. Tentei justamente não ser como acredito que eles (católicos dogmáticos) sejam, maniqueístas.

Então, 

quando passou o episódio em que Elba Ramalho fala sobre sua fé, assisti de coração aberto. A crença dela é supercatólica. Não me identifiquei, mas respeitei e fiquei emocionada.

Até que

eu tivesse lido o post da Lola sobre Elba defendendo a completa criminalização do aborto. Lê lá. Ela é contra o Estado laico, minha gente. Ela quer que a crença dela valha para todos. Ela quer que a crença dela legisle sobre o corpo alheio. Ela é contra a liberdade de escolha - e ajuda a sedimentar aquela ideia ignorante de que descrimalizar o aborto é obrigar mulheres a abortarem. Esse tipo de postura totalitária está no cerne do DOGMA CATÓLICO. E é a anti-espiritualidade. 

Porque

espiritualidade, em essência, é você se conectar com algo maior (com a liberdade de dar a esse algo o nome que quiser e NUNCA criticar ou desmerecer o algo do outro) por meio de si mesmo, OLHANDO PRA DENTRO. E dentro, meu amigo, opa, você vai ver muita sombra, muita merda. Porque somos humanos e imperfeitos. E, como em terapias analíticas (mesmo que nem a psicanálise seja considerada ciência, ela é o que mais se aproxima do paralelo possível, pra fim de comparação prática, entre espiritualidade e ciência), você vai trabalhar as SUAS QUESTÕES. Não as dos outros.

Aliás,

é a comparação que me parece mais clara: a espiritualidade está para o psicólogo sério (seja psicanálise ou qualquer outra linha, contanto que o profissional seja bom) assim como o dogma católico está para o psicólogo charlatão - ou você nunca ouviu falar daquelas pessoas que fazem terapia pra ficar ouvindo o profissional tomando partido (delas) e 'analisando' o comportamento alheio (metendo o pau na mãe, no pai, no irmão...)? Opa, existe muito. 


***

'Elba Ramalho pede proteção divina contra feministas'. Mas que bobagem... Porque por mais que o catolicismo insista em dizer, não existe esse tipo de deus. Ele é criação da cabeça e da conta bancária de pessoas como ela. 

[quanto desserviço, elba ramalho... às mulheres, ao país, à espiritualidade e até, porque quero crer que haja algo bom ali, ao catolicismo]

19.6.12

"E, DA PERSPECTIVA DO BEBÊ QUE CHEGA AO MUNDO, É SER RECEPCIONADO COM MUITO MAIS AMOR E RESPEITO"


Domingo, a Prem Kheli, que é minha amiga das antigas (e já está há um bom tempo num dos caminhos espirituais que me servem de guia) postou a foto acima, no Facebook. Para ilustrar o seguinte texto:

"Não pude estar na Marcha do Parto em Casa, mas fica aqui o meu apoio ao movimento que defende o parto humanizado e o direito de escolha da mulher gestante de baixo risco de optar por um parto domiciliar. A minha filha Clara nasceu em casa...junto com o pai e a mãe. Experimentar um parto natural é viver de forma profunda e mais consciente o rito de passagem da filha que vira mãe (e do filho que vira pai). Temos que encarar as nossas luzes e sombras para consentir a passagem de um novo Ser que chega.
Ser canal dessa passagem é se apoderar do próprio corpo e assumir a responsabilidade de nossas escolhas. É poder dar mais um passo no autoconhecimento e na nossa maturidade espiritual. E, da perspectiva do bebê que chega ao mundo, é ser recepcionado com muito mais amor e respeito.

Parabéns para todas as mulheres, homens e crianças que participaram do movimento".


Parabéns à você támbém, amiga querida, por ser essa fonte linda de inspiração.


["temos que encarar nossas luzes e sombras". temos]

17.6.12

E SOBRE O PRINCÍPIO DE 'DOGVILLE'?


Ontem, uma amiga me escreveu dizendo que queria conversar comigo sobre o post 'O Princípio da Guerra'. Ela disse: "Basicamente, toda a vida eu fiz essa coisa de não entrar em conflito, não brigar e, de repente, nos últimos tempos, eu tenho enfrentado, tenho brigado. Muitas vezes sem raiva, com serenidade, mas às vezes explodindo, e eu tenho gostado de explodir. Aí, quando li o que seu mestre falou, fiquei confusa".

Quando li a mensagem dela, quem ficou confusa fui eu. Porque achei muito pertinente. E, óbvio, me fez pensar.

Então, me lembrei que também tenho uma questão com o post e com que meu mestre disse. Ela se chama 'Dogville'. Mas quem levantou essa questão - que já me perturba há anos - foi meu irmão Luiz, logo que viu o filme, em 2001.

Ela está lá no fim, numa conversa entre Grace e seu gangsta pai, dentro do carro. Ele chama Grace de arrogante por perdoar o que aquelas pessoas fizeram com ela já que Grace as estaria perdoando por ter pena delas, por achar que elas não eram capazes de distinguir o certo do errado. Grace podia perdoar o cara que a estuprou porque ele não tinha consciência do que mal que tinha feito. E, ao fazer esse julgamento, ela se colocava acima dele.

Eu concordo com o pai de Grace. E, então, como proceder?
E esse diálogo tem tanto a ver com o post que eles usam até a questão da natureza pessoal - mas metaforizando, com um cachorro.


***

Grace: What is it, the thing, the thing that you don't like about me?
The Big Man: It was a word that you used that provoked me. You called me arrogant.
Grace: To plunder, as it were, a God given right. I'd call that arrogant, daddy.
The Big Man: But that is exactly what I don't like about you. It's you that is arrogant.
Grace: That's what you came here to say? I'm not the one passing judgement, daddy. You are.
The Big Man: You do not pass judgement, because you sympathize with them. A deprived childhood and a homicide really isn't necessarily a homicide, right? The only thing you can blame is circumstances. Rapists and murderers may be the victims, according to you. But I, I call them dogs, and if they're lapping up their own vomit the only way to stop them is with the lash...
Grace: But dogs only obey their own nature so why shouldn't we forgive them?

The Big Man: Dogs can be taught many useful things, but not if we forgive them every time they obey their own nature.
Grace: So I'm arrogant. I'm arrogant because I forgive people?
The Big Man: My God. Can't you see how condescending you are when you say that? I mean, you have, you have this preconceived notion that nobody, listen, that nobody can't possibly attain the same high ethical standards as you, so you exonerate them. I cannot, I cannot  think of anything more arrogant than that. You, my child, my dear child, you forgive others with excuses that you would never in the world permit for yourself.
Grace: Why shouldn't I be merciful, why?
The Big Man: No, no, no, you should. You should be merciful, when there is time to be merciful. But you must maintain your own standards. You owe them that. You owe them that. The penalty you deserve for your transgression, they deserve for their transgressions.
Grace: They're human beings...
The Big Man: Does every human being need to be accountable for their actions?  Of course they do. But you don't even give them that chance. And that is extremely arrogant. I love you. I love you. I love you to death. But you are the most arrogant person I've ever met. And you call me arrogant! I have no more to say.

***
Já perdi as contas de quantas vezes assisti e li esse diálogo. Principalmente ano passado, em que vivi situações, durante 4 meses, em uma casa em Londres, muito parecidas (guardadas as devidas proporções, óbvio). Eu me perguntava se estava playing Grace por me deixar ficar num lugar tão horroroso, com pessoas tão horríveis. E só consegui sair daquele lugar quando voltei da República Tcheca, onde vivi uma experiência espiritual xamânica, ponto de partida pra toda mudança que tenho feito na minha vida (e que, inclusive, me trouxe de volta ao Brasil).

Ainda assim, não tenho a resposta.

[porque mesmo que a resposta seja o amor, ainda me sinto um tanto quanto prepotente em "não revidar porque sou amorosa". me soa "sou mais amorosa do que você". me soa grace].

[mas, honestamente, quero entender. e chegar lá]

EU QUERIA TER CONHECIDO ISSO, PELO MENOS, 15 ANOS ATRÁS



Sexta, a me mandou uma mensagem dizendo que PRECISAVA me contar sobre uma palestra que ela tinha assistido na noite anterior. Falamos ontem e pirei. Eu já tinha ouvido falar sobre a GLÂNDULA PINEAL mas muito por cima, nada que chegasse perto da complexidade e da importância do estudo do Sérgio Felipe de Oliveira.

A palestra dele que a Lê viu foi na Sala Crisantempo. Como eles ainda não disponibilizaram o link (eu faço um update quando tiver) assisti o vídeo acima, que tem três anos mas, basicamente, o mesmo conteúdo.

11.6.12

PORTAL DA PANTONE




Da (é sacrilégio, eu sei)  mistura de Sílvio Santos com Aldous Huxley:
              ------- vamos abrir as portas da percepção... -------


O arquiteto Amin Blasbitcher usou as cores da Pantone pra fazer um vitral colorido na porta da casa dele. Não sei se gosto desse manuscrito. Eu poria a fonte da marca.

Via

4.6.12

CONCORDÂNCIA



Ontem, antes de desligar o computador, dei uma última lida no post abaixo e vi que tinha uma repetição de palavras. Troquei uma delas e me dei por satisfeita. Hoje - e só agora - , vi que a troca deixou a frase inteira sem concordância. Troquei um singular por um plural e deixei um rabo de frase falando sozinha sem S. Que boniteza.

E porque eu penso muito no que os outros vão pensar de mim (oh, santo julgamento, vamos caminhando ainda juntos, mas você está com os dias contados) fiquei aqui me martirizando. Como se, ontem, cansada, eu tivesse a capacidade de enxergar erro num texto que eu mesma tinha escrito e relido algumas vezes (e olha eu aqui me justificando...); como se - e é isso que importa - um erro de concordância definisse minha capacidade de escrever.

Um erro não definem nada. Dois erros continua não definindo. Nem as minha capacidade, nem as de ninguém.

Né, não?

3.6.12

O PRINCÍPIO DA GUERRA



Já faz alguns dias que as palavras (do título) acima ressoam na minha cabeça. E foram várias as tentativas de postá-las (esta, ainda em andamento). Desisto porque minhas frases não parecem espelhar apropriadamente o sentido real do meu pensamento. Soam ridículas; mal chego a concluir uma ideia. Meu julgamento anda nas alturas - e não é falta de olhar para isso.

Pensei várias vezes que a incapacidade de escrever o post era, na verdade, falta de vontade de me expor. Talvez. Porque para contextualizar a frase preciso escrever que tive um encontro meio desagradável com uma pessoa que me tratou de forma hostil. E que eu, cansada desse tipo de situação, reagi à altura (sem drama, só fui igualmente hostil). Então, contei isso para o meu mestre. Que me explicou - sem me julgar ou criticar - que em situações como essa devemos agir amorosamente. Que, independentemente do outro, devemos agir de acordo com a nossa natureza, que é amorosa. Mesmo que o outro insista em continuar agindo com hostilidade.

- Você não faz isso para ter a aprovação ou o amor do outro. Você faz isso porque é da sua natureza.

Concordei só parcialmente. Continuava sem fazer sentido dentro de mim. E lembrei da primeira vez que aquele tipo de situação tinha acontecido na minha vida. Eu era criança. Tinha menos de dez anos e fui viajar com uma amiga para o sítio dela. Lá, sua prima, com ciúme de mim, começou a me tratar mal, principalmente quando ninguém via. Eu fiquei passada, quieta. Até que falei pra ela, quando estávamos só nós duas: vamos fazer uma surpresa para a sua prima e ficar de bem?
Mas ela disse não. E me hostilizou ainda mais.
Eu passei um dos piores fins de semana da minha vida.

Contei para meu mestre a história esperando alguma tolerância na minha postura de tratar mal quem me trata mal. Na verdade, eu tinha esperança que houvesse alguma exceção nessa regra da natureza amorosa; que 'fight back' pudesse entrar na regra de outro tipo de amor, o próprio.

Mas ele não seria um mestre se tivesse me dito isso.

Ele então reforçou a ideia da natureza amorosa. E disse a frase que, para mim, trouxe o entendimento integral (na cabeça e no coração). Ele disse que a reação hostil ou agressiva diante de um ataque é nada menos do que o princípio da guerra.

Não existem exceções ou concessões no caminho. Nem ele é fácil.