17.6.12

E SOBRE O PRINCÍPIO DE 'DOGVILLE'?


Ontem, uma amiga me escreveu dizendo que queria conversar comigo sobre o post 'O Princípio da Guerra'. Ela disse: "Basicamente, toda a vida eu fiz essa coisa de não entrar em conflito, não brigar e, de repente, nos últimos tempos, eu tenho enfrentado, tenho brigado. Muitas vezes sem raiva, com serenidade, mas às vezes explodindo, e eu tenho gostado de explodir. Aí, quando li o que seu mestre falou, fiquei confusa".

Quando li a mensagem dela, quem ficou confusa fui eu. Porque achei muito pertinente. E, óbvio, me fez pensar.

Então, me lembrei que também tenho uma questão com o post e com que meu mestre disse. Ela se chama 'Dogville'. Mas quem levantou essa questão - que já me perturba há anos - foi meu irmão Luiz, logo que viu o filme, em 2001.

Ela está lá no fim, numa conversa entre Grace e seu gangsta pai, dentro do carro. Ele chama Grace de arrogante por perdoar o que aquelas pessoas fizeram com ela já que Grace as estaria perdoando por ter pena delas, por achar que elas não eram capazes de distinguir o certo do errado. Grace podia perdoar o cara que a estuprou porque ele não tinha consciência do que mal que tinha feito. E, ao fazer esse julgamento, ela se colocava acima dele.

Eu concordo com o pai de Grace. E, então, como proceder?
E esse diálogo tem tanto a ver com o post que eles usam até a questão da natureza pessoal - mas metaforizando, com um cachorro.


***

Grace: What is it, the thing, the thing that you don't like about me?
The Big Man: It was a word that you used that provoked me. You called me arrogant.
Grace: To plunder, as it were, a God given right. I'd call that arrogant, daddy.
The Big Man: But that is exactly what I don't like about you. It's you that is arrogant.
Grace: That's what you came here to say? I'm not the one passing judgement, daddy. You are.
The Big Man: You do not pass judgement, because you sympathize with them. A deprived childhood and a homicide really isn't necessarily a homicide, right? The only thing you can blame is circumstances. Rapists and murderers may be the victims, according to you. But I, I call them dogs, and if they're lapping up their own vomit the only way to stop them is with the lash...
Grace: But dogs only obey their own nature so why shouldn't we forgive them?

The Big Man: Dogs can be taught many useful things, but not if we forgive them every time they obey their own nature.
Grace: So I'm arrogant. I'm arrogant because I forgive people?
The Big Man: My God. Can't you see how condescending you are when you say that? I mean, you have, you have this preconceived notion that nobody, listen, that nobody can't possibly attain the same high ethical standards as you, so you exonerate them. I cannot, I cannot  think of anything more arrogant than that. You, my child, my dear child, you forgive others with excuses that you would never in the world permit for yourself.
Grace: Why shouldn't I be merciful, why?
The Big Man: No, no, no, you should. You should be merciful, when there is time to be merciful. But you must maintain your own standards. You owe them that. You owe them that. The penalty you deserve for your transgression, they deserve for their transgressions.
Grace: They're human beings...
The Big Man: Does every human being need to be accountable for their actions?  Of course they do. But you don't even give them that chance. And that is extremely arrogant. I love you. I love you. I love you to death. But you are the most arrogant person I've ever met. And you call me arrogant! I have no more to say.

***
Já perdi as contas de quantas vezes assisti e li esse diálogo. Principalmente ano passado, em que vivi situações, durante 4 meses, em uma casa em Londres, muito parecidas (guardadas as devidas proporções, óbvio). Eu me perguntava se estava playing Grace por me deixar ficar num lugar tão horroroso, com pessoas tão horríveis. E só consegui sair daquele lugar quando voltei da República Tcheca, onde vivi uma experiência espiritual xamânica, ponto de partida pra toda mudança que tenho feito na minha vida (e que, inclusive, me trouxe de volta ao Brasil).

Ainda assim, não tenho a resposta.

[porque mesmo que a resposta seja o amor, ainda me sinto um tanto quanto prepotente em "não revidar porque sou amorosa". me soa "sou mais amorosa do que você". me soa grace].

[mas, honestamente, quero entender. e chegar lá]

Um comentário:

nana tucci disse...

"You should be merciful, when there is time to be merciful. But you must maintain your own standards"

muito bom

acima de tudo, vc precisa ser verdadeiro com vc. acho que explodindo ou não explodindo, tanto faz, sendo verdadeiro, está certo, e estando certo, e havendo empenho, chegaremos lá