28.11.12

"DRELINA ESPIAVA EM SONHO, DA JANELA"



"A noite, de si, recebia mais, formava escuridão feito. Daí, dos demais, deu tudo vagalume. -'Olha quanto mija-fogo se desajuntando no ar, bruxolim deles parece festa!' Inçame. Miguilim se deslumbrava. -'Chica, vai chamar Mãe, ela ver quanta beleza...' Se trançavam, cada um como que se rachava, amadurecido quente, de olho de bago; e as linhas que riscavam, o comprido, naquele uauá verde, luzlino. Dito arranjava um vidro vazio, para guardar deles vivendo. Dito e Tomezinho corriam no pátio, querendo pegar, chamavam: -'Vagalume, lume, lume, seu pai, sua mãe, estão aqui!...' Mãe, minha mãe. O vagalume. Mãe gostava, falava, afagando os cabelos de Miguilim: -'O lumêio deles é um acenado de amor...' Um cavalo se assustava, com medo que o vagalume pusesse fogo na noite. Outro cavalo patalava, incomodado com seu corpo tão imóvel. Um vagalume se apaga, descendo ao fundo do mar. -'Mãe, que é que é o mar, Mãe?' Mar era longe, muito longe dali, espécie duma lagoa enorme, um mundo d'água sem fim, Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. -'Pois, Mãe, então mar é o que a gente tem saudade?' Miguilim parava. Drelina espiava em sonho, da janela. Maria Pretinha e Rosa tinham vindo também."

***

Ontem me foi dito que hoje era dia de aquietar. De ficar em casa. Eu já sabia que era dia de esperar; o dia do meio, entre a descoberta e a liberdade. Oxalá seja assim. E com minha guia amarela fiz grandes planos de espera que envolviam alguns ingredientes de sempre, pra evitar sobressaltos: inhame com gengibre no suco, quinoa com abacate na salada, chocotone com cafezinho pra equilibrar. E Guimarães Rosa.

O que eu não sabia é que, mais uma vez, eu me misturaria ao universo de um livro (e isso está ficando esquisito): uma hora antes de abrir na página 89 e dar sequência à leitura, eu disse - falando sobre e comigo mesma - a frase que descreve Drelina. E se dela diz sonho onde eu disse vida é ainda mais indicativo. E o mesmo.

A única coisa que me vêm à cabeça é que talvez seja hora de tirar a poeira do Aleph.

25.11.12

LAMINGTONS, A VERSÃO AUSTRALIANA DO NOSSO BOLO PELÉ (PORQUE NÃO É O CONTRÁRIO!)



Depois que desisti (pra me arrepender mortalmente pra sempre) de ir pra Paúba ontem de manhã, passei a tarde caçando alguma coisa que me fizesse fugir da auto-flagelação. Sem sucesso. Assisti 007 Contra Goldeneye (tenho vergonha de admitir mas Pierce Brosnan é meu Bond predileto) e browseava na internet quando achei o tumblr da Philippa Rice. Lindo, cheio de ilustras e coisas bacaninhas, ideias gostosas, meio infantil meio fofo, fiquei fixada. E só parei quando apareceu a foto de um bolo de chocolate com coco. Mas não qualquer um. 

Era o bolo de aniversário da minha infância, o que as mães mandavam pra escola cortado em pedaços, um a um embrulhados em papel alumínio. Molhadinho, envolto em coco. Vou fazer esse bolo AGORA, pensei. Assim como pensei que seria fácil achar a receita na internet. 

Mas não. 

Não era um clássico, como eu imaginava. Tentei vários tipos de busca e tudo que eu achava parecia meio truque. Lembrei que no tumblr da Phillipa havia um nome na legenda da foto: lamingtons. Hmmm. Outra busca e fiquei sabendo que era uma sobremesa tradicional na Austrália mas nenhuma receita australiana me convenceu. O bolo dos aniversários da minha infância não tinha nada a ver com aquilo. Fui pra cozinha. E fiz um Nega Maluca. 

Nunca tente fazer um bolo contrariada. Claro que ficou ruim. 

[e claro que eu comi metade e jantei bolo. se o dia já tá todo torto, massa crua e bolo quente. descem que nem manjar]

Mas então que hoje fui almoçar na casa de uma tia que fazia bolos deliciosos quando eu era criança. E nem precisei me esmerar na descrição pra que ela dissesse: o bolo Pelé! Abriu o armário, pegou o caderno e achou a receita entre umas folhas soltas. Escrita à mão, em detalhes, do pão de ló ao papel alumínio.

Talvez ainda chegue o dia em que não exista mais caderno, letra cursiva e lembrança palpável. Nem um doce cafona chamado Strogonoff de Chocolate cuja receita leva a frase "Levar à compoteira". 

Esse dia vai ser triste.


[ao bolo pelé. here i go]

22.11.12

FOI MAL, MICHEL



1.
Anteontem à noite, comecei a ler Diário da Queda, do Michel Laub. Como de costume, depois de alguns capítulos, adormeci.

2.
Acordei às quatro e pouco da manhã, com insônia. Na verdade, acordei depois de sentir um chacoalhão. Dizem que a gente sai do corpo quando dorme - mas por que eu teria voltado de maneira tão abrupta? De qualquer forma, não tive medo. Nem tinha tido um pesadelo, pelo contrário - apesar do sono conturbado, eu sonhava com literatura. Nada relacionado a Diário da Queda. Ainda.

3.
Levantei, fiz xixi e acendi o abajur. Voltei pra leitura de antes. E caí no sono de novo.

4.
Caí no sonho de novo. Sonhei que alguém me dizia, como se eu ainda estivesse lendo, que eu tinha que parar a leitura; que ler de madrugada era condenar o autor, também, à insônia. Que enquanto eu lia eu impedia que o Michel Laub dormisse.

5.
Terminei o livro ontem. Em horário comercial.


[da inviabilidade da experiência onírica humana. não é sonho]


Dá pra ler o primeiro capítulo de Diário da Queda aqui, no blog do autor

MANDJÓCA




Ando obcecada por receitas. Basta eu encontrar alguém para, em menos de cinco minutos, levar o assunto pra cozinha. Em alguns casos, como sou vegetariana, tenho que adaptar o que a pessoa fala. Em outros, tenho que traduzir o vocabulário do cozinheiro-com-prática: um fio de azeite não é só um fio (não por acaso minha comida ficava seca) assim como os segundos do alho dourando no azeite significam, na verdade, minutos (ou fica cru, Isabela).

[parece um problema isolado no uso do azeite mas é bem mais do que isso. é que me faltaram outros exemplos]

Por isso a receita da panqueca de mandioca ganhou tanto meu coração. É praticamente uma anti-receita, de tão simples:

Rale um pedaço de mandioca (sem casca) na parte fina do ralador
Coloque um pouquinho (bem pouquinho) de ghee (ou azeite ou manteiga) numa frigideira pequena
Amasse com o garfo - a mandioca se "auto-gruda", virando uma panquequinha
Vire pra cozinhar do outro lado
Sal a gosto, ou não (eu gosto)

E tá pronta a panqueca delícia de mandioca! Meu café da manhã e meu jantar, há semanas. Purinha, com queijo, com mel ou com o que você quiser.

[é mais gostosa que tapioca. e mais fácil de fazer]

20.11.12

EU NÃO QUERO MAIS SAIR DE 1Q84



Durou cerca de uma semana - não consigo lembrar o dia em que comecei. Sei que não larguei até o fim, torcendo pra que não houvesse essa coisa chamada vida nos intervalos da leitura. E havia, e eu saía de casa pra voltar seca pela continuidade da história, mesmo que fosse madrugada, mesmo que capaz de ler apenas duas ou três páginas antes que o sono me derrubasse.

Mas isso não é tudo.

Sexta-feira, eu vi Aomame. Almoçávamos, as duas, no mesmo restaurante. Não contei para as pessoas que estavam comigo nem, na verdade, achei mesmo que fosse ela. Mas quando bati os olhos naquela moça japonesa, que comia com um amigo na mesa da frente, vi a personagem do meu livro. E fui imediamente transportada pra história, por alguns instantes, a despeito de não estar sozinha. Porque ver é diferente de imaginar. E, como eu disse, eu vi.

À noite, fui numa pizzaria. E tudo corria bem (ou seja, no mundo real) até que eu fosse ao banheiro. Até que eu tentasse sair do banheiro. Que tinha várias portas e me remeteu - física, literária e loucamente - a um labirinto. Por alguns longos segundos achei que não fosse conseguir encontrar a saída.

Então, no dia seguinte, eu cheguei ao fim do livro 1. Pra minha angústia.

Mas um trecho da crítica do The New York Time Book Review na orelha da contra-capa daria sentido aos acontecimentos do dia anterior (que, eu ainda não sabia, continuariam acontecendo):

"Murakami é como um mágico que explica o que está fazendo conforme apresenta o truque, e mesmo assim faz parecer que tem poderes sobrenaturais (...). Qualquer um pode contar uma história que se pareça com um sonho, mas é raro o artista, como ele, que nos faz sentir como se nós mesmos a estivéssemos sonhando."

[e já dizia calderón de la barca...]

***

O livro 2 só vai ser publicado no Brasil ano que vem.

A imagem é de uma crítica do The New York Time Book Review que eu não sei se é a mesma da contra-capa da versão brasileira da Alfaguara. Não li - fala sobre mais de um volume e fiquei com medo de ter spoiler.

***

[a asserção "essa coisa chamada vida nos intervalos da leitura" só é possível se você acreditar no paradoxo como condutor da sobrevivência]

[leitura vida est]

[y todavía sueño]

10.11.12

EU RECUPEREI MEU IPHONE POR CAUSA DO VLADIMIR SAFATLE



O encadeamento de ações que levaram à perda e, posteriormente, à devolução do meu iPhone teve início há pouco menos de um mês. Foi quando deve ter chegado o email-convite do aniversário do Prem Baba. As comemorações aconteceriam no ashram em Nazaré Paulista e hoje haveria um satsang. Era preciso fazer inscrição. Mas não fiz.

Pouco menos de um mês é muito tempo. Ácaros nascem e morrem em pouco menos de um mês. Em pouco menos de um mês, ovos viram lagartas que viram a borboleta monarca. E eu, em relação ao aniversário do Prem Baba, não fiz nada além de pensar. Até que fizeram por mim. Ontem, véspera do satsang, recebi uma sugestão, um convite e uma carona - tudo em pouco mais de meia hora. E aceitei, claro, mesmo que a carona fosse só de ida "Eu também não tenho como voltar mas a gente dá um jeito lá, fica tranquila. Nem que a gente volte a pé". Lembrando que Nazaré Paulista fica a 70km de São Paulo.

Chovia, a lama era muita e o satsang foi lindo. Assim que terminou, olhei para minhas companheiras de carona sem volta - éramos três - na esperança de já haver uma solução. Nada. Então olhei para trás, mirei num casal e perguntei se eles voltariam naquela noite. "A gente pode ir com vocês?" Eles disseram que sim. A pouca firmeza que senti neles diminuiu quando as cerca de 400 pessoas começaram a formar fila para cumprimentar o guru. Será que os acharíamos de novo? Nessas, encontrei conhecidos, comecei a me preocupar com o cumprimento (toco os pés do guru? toco com as mãos? uso a testa? o que é aquilo que ele está dando pras pessoas?) e reparei que, atrás da gente, tinha uma menina impaciente. Perguntei se ela queria passar na nossa frente "Ah, obrigada, é que o taxista está me esperando".

"Você veio de táxi? Sabe se é fácil a gente conseguir um, é que estamos sem carona".

"Por que vocês não voltam comigo?"

Já perto de casa peguei meu iPhone pra anotar o email dela. "No próximo satsang você vai de carona com a gente, é só combinar", eu disse, sem me tocar de que, se o satsang fosse este, ela teria tido apenas como ir. E seríamos quatro procurando carona de volta. Mas foi de coração.

Ela me ditou o email soletrando letra por letra e, antes da arroba, releu, explicando que era a inicial de seu nome seguida de seu sobrenome, Safatle. "Como o colunista da Folha", falei. "O filósofo, Vladimir".

"Ah, sim, é meu primo"

Ela falou o provedor - pensei, "Antigo" e, depois de anotar, fechei o bloco de notas e deixei o iPhone no banco do táxi antes de descer em casa.

Demorou meia hora pra que eu me desse conta de que estava sem celular. E mais uns dez minutos de frenéticas ligações em vão pro meu número - se eu estava num satsang, o celular estava no silencioso, o taxista não ia ouvir. Eu torcia pra que ele não tivesse pego outro passageiro. E já dava tudo por perdido quando lembrei que a menina tinha o telefone do motorista de táxi. E eu sabia de cor o email dela: a primeira letra do nome, o colunista da Folha, o provedor antigo.

Bingo.

O que aconteceu na sequência foi uma sucessão de sortes. Ela viu meu email na hora, eu liguei pro taxista, ele tinha voltado pra casa sem pegar outro passageiro. Amanhã ele me traz o telefone.

Obrigada, Vladimir.