14.12.13

2x2 COM VANTAGEM PRA GENTE


Trecho de "Pirocas ao Vento", post de despedida do Inácio Araújo no UOL



De ontem, 1,
escrevi o post anterior, sobre Divórcio, do Ricardo Lísias. Que, entre outras críticas à grande imprensa, fala sobre alguns jornalistas comentarem o livro sem ter lido . Então, coincidência ou não, achei um texto, na Folha, com um erro crasso logo ali no primeiro parágrafo. Uma informação - que pelo estilo narrativo de Divórcio, que usa da repetição de fatos e frases - não passaria nunca desapercebida pelo LEITOR.

De ontem, 2,
mas só vi hoje (num post da Giovana no Facebook), um texto do Mario Sergio Conti, na Folha, que pretende fazer uma comparação entre filmes que têm muitas cenas de sexo. Pretende - e não chega lá - porque faz uma resenha errada de Tatuagem. Ou seja, ele fala de um filme sem ter assistido! Ele provavelmente (porque agora duvido de tudo) viu Azul, que é o filme mais falado, e ouviu o galo cantar que tinha alguns outros filmes com cenas de sexo. E pra que assistir aos outros, né? Pra que se dar ao trabalho de pesquisar? Até porque ele deixou de fora da "crítica"o também francês "Um Estranho no Lago" que se encaixaria perfeitamente ali no montinho de palavras que ele juntou num espaço da Folha…

De ontem, 3,
várias pessoas compartilharam, no Facebook, o post de despedida do Inácio Araújo do UOL (que é do grupo Folha). E que post! Eu pus um trecho na imagem mas vai lá e lê inteiro. "Pirocas ao Vento" vale cada palavra.  Haha, sim, é esse o título.

De ontem, 4,
- vejo que houve empate no "fomos bem/fomos mal" (quem foi do JT/Estadão das antigas sabe o que é isso) deste post - a Fórum é a segunda revista com maior engajamento do Brasil no Facebook, de acordo com um levantamento da Revista Imprensa. A Veja é a sétima colocada. Yay!

De hoje, 1,
leva tempo, mas as coisas mudam.



[eu voto para que mario sergio conti entre no lugar de inácio araújo para crítico de cinema do uol. acho que tem tudo a ver. acho também que ele mente a idade hahaha essa coisa tão cafona da geração dele. 58 anos? sei]

13.12.13

"MEU CORPO FERIDO, POR MAIS QUE EU AINDA PERCA ENERGIA, PRECISA PORTANTO VIRAR LITERATURA"



Li Divórcio, do Ricardo Lísias, numa tarde.

Depois, fui procurar as resenhas e críticas na internet, principalmente nos grandes jornais - se você conhece a história, sabe o porquê. E fiquei com um sorrisinho irônico de satisfação ao perceber que todas eram positivas - não teria como não ser, é um livro ótimo.

Esqueça apenas um textinho ordinário, na Folha, que começa dizendo que o divórcio em questão se deu três meses após o casamento. Oi? Um jornalista que não se dá ao trabalho de ler o livro antes de escrever sobre ele… ouch!


O Ricardo Lísias, escritor, deve ter dado risada.

O Ricardo Lísias, personagem, diria (e disse) que muito jornalista falou do romance sem ler. E que falar mal da grande imprensa é chutar cachorro morto.


Algumas resenhas falam lindamente da forma, da repetição proposital, do arranjo das palavras. Outras da ironia deliciosa, da delicadeza da perda e da reconstrução da pele e da vida. Da morte.

Lê o livro.



[eu fiquei com preguiça de entrar no mérito de 'divórcio' ser ou não verídico]

[até porque isso é óbvio]

8.12.13

A VIDA DE ADELE E O BAQUE DE HEROÍNA



Fiz uma cagada ontem. Logo depois das três horas de "Azul é a Cor Mais Quente", eu fui pra uma festa. Fui, porque queria prestigiar uma amiga (o que foi legal) mas, putz, eu tinha acabado de assistir a uma porrada de filme e tudo o que pensava era

quero ir pra casa digerir o que vi. Mas não fui.

E foi uma perda. Porque, por mais que eu assista de novo, algumas coisas são que nem brown sugar, babe - você só vai sentir aquilo da primeira vez. As outras vão ser tentativas inúteis de repeti-la.

E depois de "Azul…" você sai do cinema meio atordoado.

Ainda tive uma segunda chance - fico repisando o fato porque meu arrependimento é realmente grande (e me massacra) - quando, indo pra festa, precisei parar pra abastecer. Eu, que já estava dirigindo de forma estranha, falei toda confusa com o frentista. Então racionalizei

caramba, eu tô realmente tocada pelo filme. Mas segui no caminho inverso do que eu sentia.

E foi uma pena. Que isso tenha acontecido bem ontem. Porque, ultimamente, tenho tomado a decisão certa.



Durante a semana, li algumas coisas a respeito de "Azul…". Além das matérias de jornal e críticas de amigos, li um post bem legal do Thiago Stivalleti. Entre outras coisas, ele fala sobre a polêmica do filme em Cannes (onde ganhou a Palma de Ouro) e sobre o grupo de lésbicas que criticou as cenas de sexo - elas dizem que aquilo não existe, que mulheres gays não transam daquele jeito. Sobre isso, Thiago escreve:

"(…) fico com a frase do Michel Ciment este ano na Mostra: 'as pessoas continuam acreditando que um artista só pode falar daquilo que conhece. Se fosse assim, Kubrick nunca teria feito 2001 porque não viveu no tempo dos primatas e nunca viajou numa nave espacial'. O importante aqui não é 'corresponder à realidade', mas criar uma obra coerente em seus próprios sentidos".

No post dele não tem, mas, aqui, um link pro vídeo da reação desse grupo (não sei se teve outro) de lésbicas às cenas de sexo do filme (a maior tem sete minutos).

E o Jotabê fez um post sobre o recém-lançado gibi, de Julie Maroh, no qual o filme foi inspirado.

"DANCE AND FLY"



Anelis Assumpção acabou de postar no Facebook o vídeo acima e a letra da música.


"Not Falling"

Babilon wants to eat someone
I'm not falling
Babilon wants to tweet someone
I'm not following
A cada corpo que padece prece
Ao destino extinto de uma espécie
Ao que não se esquece
Quem é vivo sempre aparece
A humildade é relativa no ar
We can't breath
Can't rewind
Just go away
Dance and fly
I'm gonna give birth
I bear in my womb the hope
Peace says the pace
For the blessed mass
The river comes down
And takes what we don't feel like
The sea hugs my soul
And everything back to your place
O coração leve
Como uma pluma se eleva
Eu não estou caindo

Eu já disse aqui que (a musa) Anelis foi minha trilha este ano. Que tá no finzinho e foi tão bom! Ela, agora, tão certeira neste dia vem cantar o que eu tava sentindo: o coração leve.


[eu não estou caindo]

[mas eu já sabia disso]


4.12.13

CHICAS




Domingo à tarde, terminei de ler Todos Nós Adorávamos Caubóis, da Carol Bensimon.

Putz, não gostei muito. Apesar de ser um livro curto (tem 190 páginas) li ao longo de toda semana passada. E sei que só mais perto do fim, talvez em 3/4 de livro - seria na quinta-feira? - quando a tensão da relação entre as personagens se exacerbou (e não na estrada - embora a tensão estivesse ali todo tempo), passei a achar o livro mais interessante. O negócio é que em 2009 eu li Pó de Parede, primeiro livro da Carol e amei. Achei incrível, ainda mais pra uma iniciante. Talvez a expectativa fosse grande demais, enfim.

Leia Pó de Parede. Além de tudo é de uma editora chamada Não Editora.

[né?]

Ouça Todos Nós Adorávamos Caubóis. Na verdade, uma playlist feita pela autora com as bandas que ela ouvia enquanto escrevia o livro. Eu curti.

Já o booktrailer, se você não leu o livro, não assista. Pelo amor de deus, como é que rosto e voz das personagens de um livro podem ser definidos por alguém que não o leitor, que não sua imaginação? É herético.

Mas se você quiser uma resenha detalhada (boa) e positiva, tem aqui.



Ontem, comecei a ler o primeiro livro da Tatiana Salem Levy, a Chave da Casa. Óbvio, não tenho ainda nada pra falar. Mas, ano passado, li Dois Rios e pirei. Me tocou demais. Influenciou muito o fato de ser uma história de irmãos e eu estar num momento muito tenso com um dos meus. Percebi isso quando reli, quase na sequência, Manuelzão e Miguilim. Em diversas passagens, e principalmente no fim, chorei alto, de soluçar.

É claro que a literatura, assim como o cinema autoral, funcionam como espelho. E quanto maior a identificação, mais a chance do bicho pegar (pro bem e pro mal - quem nunca odiou um filme ou livro porque de alguma forma se "viu" ali?). Mas não é só isso. Pra citar um, gostei demais de As Correções, do Jonathan Franzen - e, putz, nada mais distante de mim.



As duas tão entre os 20 brasileiros da Granta


[as imagens são do booktrailer do caubóis. daria pra fazer ele todo assim, sem matar a fantasia do leitor]

3.12.13

"A PRÁXIS DO IMPROVÁVEL JUNTO À EPIFANIA DA DESORDEM"







Que lindo é Tatuagem! A frase do cartaz acima mais essa frase (do título do post) falada pela personagem Clecio, definem bem. E estética kitsch regional '70 recifence  (não achei fotos) iluminava os meus olhos cena a cena - eu tinha vontade de fotografar a tela, ai, se isso fosse possível…

O mais louco é que, domingo de manhã, eu pensei: nossa, duas pessoas, na mesma semana, disseram que tiveram epifanias. E pensei também: acho que não sei exatamente o que epifania significa.

Então, horas depois, na praia, Clecio disse a Paulete,

…epifania é dar vazão ao desejo.



[adoro a vida!]

1.12.13

'E NO MUNDO DIZEM QUE SÃO TANTOS SALTIMBANCOS COMO SOMOS NÓS'

Foto da querida Bárbara Castro











Tem um montão de gente se organizando pra melhorar SP.
É trabalho de formiga.

São 459 anos de erros (é domingo de manhã, meu corpo pede leveza e eu preciso de eufemismos para isso) - 8 anos de PSDB com Serra e Kassab; 4 de Pitta, cria de Maluf, que destruiu a cidade em dois mandatos de 4 anos anos cada e que, por sua vez, era cúmplice do Reynaldo de Barros, que comandou a prefeitura por 4 anos durante a ditadura e a roubalheira com as empreiteiras por décadas (ambos). E, claro, 4 anos de Covas, e a fraude nos transportes públicos.

Tem um montão de gente se organizando pra melhorar SP.
É corajoso. E incrível.



[…junte um bico com dez unhas, quatro patas, trinta dentes e o valente dos valentes ainda vai te repeitar…]

[…e mais dia menos dia a lei da selva vai mudar…]

28.11.13

"NEW BEGINNINGS"



Esse filme, apresentado em 12 de setembro deste ano, é uma homenagem do NYC Ballet ao 9/11. Foi filmado ao amanhecer, no 57º andar do 4WTC em Manhattan.

"New Beginnings is a testament to the resilience of the human spirit and a tribute to the future of the city that New York City Ballet calls home."

GRATITUDE MANDALA


Community Mandala Project

MY MEAT IS MINE



Já faz uns meses que tô me coçando. Nos dois sentidos da gíria.

- De vontade de fazer mais.

- De estar me agilizando pra fazer.

Quero me coçar num terceiro sentido.

- O da cicatrização.

Mas enquanto houver tanto sol - e ele voltou hoje, lindão - não há muito o que eu possa fazer.

- Just wait.


[e o título desse post é um trocadilho com a "marca" de tatuagens do yann black, o canadense que tem um estilo incrível (e bastante copiado). eu fiz um post aqui em 2009]

26.11.13

MULHER É BICHO ESQUISITO/TODO MÊS SANGRA...


Foi meu irmão quatro anos mais velho quem me contou o que era menstruação. Estávamos saindo da praia, andando na areia, na direção de casa e perguntei a ele o que queria dizer a frase "mulher é bicho esquisito/todo mês sangra". No minuto em que ele começou a contar me arrependi de ter perguntado (vergonha).
Nunca esqueci.

Eu devia ter uns 7 anos. Porque a frase é da música Cor-de-Rosa Choque, da Rita Lee. Tema da abertura de  TV Mulher  na época em que a Marília Gabriela era apresentadora e a Marta Suplicy tinha um quadro sobre sexo ousado pra época. E música de trabalho do disco da foto acima (de 82), o primeiro que ganhei "só pra mim".
Tenho até hoje e sei todas as músicas de cor.

Acho lindíssima a capa desse disco.

[…um sexto sentido maior que a razão]

25.11.13

SE CONSELHO FOSSE SOM



Eu não quero soar repetitiva mas a mistura do piano de Vitor Araújo com os outros instrumentos da Banda Rivotrill vale este post à parte.


De nada.

"USANDO AS PALAVRAS DE ERNESTO SABATO, SENTIA NA PELE QUE 'A RAZÃO NÃO SERVE PARA A EXISTÊNCIA'"


Faz mais ou menos um mês, li, no Gluck Project, a história da Daniela Pucci, ex-professora brasileira do MIT que largou a vida acadêmica pra virar dançarina de tango profissional. Incrível. Semana passada, descobri que ela é irmã de uma amiga minha do clube. A proximidade, não sei… fiquei ainda mais tocada. Deu vontade de reler a entrevista. Que, mais ainda, fez tanto sentido...


"Sinto que viver, e especialmente ser consciente de nossa condição, é incrivelmente difícil, é a carga do ser humano: viver sabendo da arbitrariedade do sofrimento, de nossa impotência diante da tragédia, doença, de todos os males que afetam os seres que amamos, viver lembrando de nossa própria mortalidade. A religião, de alguma forma, tenta resolver isso, oferece uma teoria. Mas, na minha mente - que até hoje funciona mais pela lógica - eu consigo, no máximo, ser agnóstica, admitindo que não posso saber se tudo tem um motivo ou é completamente aleatório. Não é uma posição muito confortante ou satisfatória. Como alternativa, alguns de nós buscamos aliviar ou resolver essas questões pela ciência, que também está limitada em suas respostas. E o tango, no final, não pode me dar nenhuma resposta, mas me dá outra coisa: faz com que todas essas questões se tornem 'irrelevantes'. O tango tem esse poder de me ancorar no presente, no prazer físico do movimento, no prazer emocional do encontro com a música e com outra pessoa. Minha crise existencial se dissolve diante disso."


(a aspa do título do post também é dela e está em outra parte da entrevista)


[o toque, o sentido, a música]

24.11.13

É SÓ FECHAR OS OLHOS E SENTIR








Eu conheci Vitor Araújo trabalhando no Elena - é dele a música mais linda do filme. E porque tenho pensado muito em quanto (e como) Elena mudou minha vida, tive vontade de ouvir Valsa pra Lua e mais do Vitor. E fiz isso incontáveis vezes e o fim semana de chuva veio muito a calhar. Fim de semana de calma.

Leve.


[não por acaso, ontem fiz uma das melhores aulas de yoga até hoje. tão dentro. e, de novo, tão leve]

23.11.13

"ELES NÃO SE MATAVAM PORQUE ELES CULTIVAVAM A BELEZA"





"Em toda obra de arte há um elemento de dor. A gente produz a beleza pra lutar contra a tragédia. Essa é uma observação que Nietzsche faz no livro 'As origens da tragédia a partir do espírito da música'*. Os gregos tinham um agudo senso do trágico— não eram como os cristãos, que sempre têm final feliz porque ainda que tudo aconteça de desgraça, você vai pro céu. Os gregos, não. A tragédia era tragédia. Nietzsche, então, faz a pergunta: se eles eram assim tão dominados pelo espírito trágico, por que não se matavam? A resposta que sugere é: eles não se matavam porque cultivavam a beleza. A beleza permitia que eles olhassem para a tragédia face a face".

Assistindo ao doc "Eu Maior" (deste post), vi que essa fala do Rubem Braga tem tudo a ver com a premissa de um outro doc (deste post), inspirado pela frase do Ferreira Gullar que vale repetir:

"A arte existe porque a vida não basta"


[tristeza em pensar que beleza não seja mais sinônimo de arte. que tenha sido reduzida a tão pouco]


*há variações no nome desse livro, por causa de diferentes traduções e edições. A que encontrei mais recorrentemente foi "A origem da tragédia: proveniente do espírito da música"

Essa série de imagens chama Alternate Reality e é deste flickr

SÃO PAULO WALK AND TALK








São Paulo Walk é uma página no Facebook que publica fotos da cidade enviadas por qualquer pessoa - desde que sejam legais. Lembrei de um post que fiz em Londres, em 2010 e peguei as que estão acima.

London was asking, São Paulo is talking and I'm a word lover as always.

22.11.13

PRAIA DO SONHO



Neste link você simplesmente vê Cacilda Becker dançando livre, leve e linda numa praia em Itanhaém. Que deve ser a do Sonho, já que esse é o nome do filme.

Pouco menos de um minuto e meio da mais pura arte não restaurada. Muda.

Põe uma música pra tocar na cabeça e assiste.


[vestido branco, areia e mar]


"A ARTE EXISTE PORQUE A VIDA NÃO BASTA"



Tão linda a frase de Ferreira Gullar que inspirou esse doc

[não basta]

19.11.13

QUE LOS CUMPLA FELIZ



A página no Facebook do BFI (British Film Institute) postou uma das frases mais emblemáticas de Brilho Eterno pra comemorar o aniversário do Charlie Kaufman (que eu considero gênio, assim como a maior parte da humanidade).

"Constantly talking isn't necessarily communicating"

Minha frase do filme é outra. Falei dela semana passada, não por acaso num restaurante. Eu sempre observo casais que comem mudos. Eles podem estar apenas momentaneamente brigados.

"Are we like those bored couples you feel sorry for in restaurants? Are we the dining dead?"

Ou ser do tipo living dead.

Mas, hoje, minha frase seria outra. Tão frugal que poderia ou não estar na boca de Clementine em Brilho Eterno.

"You know me, I'm impulsive."

Mas tá. E isso faz toda a diferença.


[joel: that's what i love about you]

8.11.13

THANKS, AGAIN, PATTI




"To be a human being at this times it's all difficult. You've got to go through life hopefully trying to stay healthy, you know, being as happy as you can and pursuing, you know, doing what you want.

If what you want is to have children, if what you want is to be a baker, if what you want is to live out in the woods or try to save the environment or maybe what you want is to write scripts for detective shows.

It doesn't really matter, you know, what matters is to be... is to know what you want and pursue it and understand that is gonna be hard because life is really difficult. You're gonna lose people you love, you're gonna suffer heartbreak, sometimes you'll be sick, sometimes you'll have a really bad toothache, sometimes you'll be hungry, but on the other hand you'll have the most beautiful experiences.

Sometimes just the sky, sometimes, you know, a piece of work that you do that feels so wonderful or you find somebody to love, your children…

There're beautiful things in life so when you're suffering, just, you know, it's part of the package, you know. You look at it: we're born and we also have to die. We know that so it makes sense that you're gonna be really happy and things are gonna really fucked up too. Just ride with it. It's just like a roller coaster to ride, it's never gonna be perfect.

It's gonna have perfect moments and then rough spots but it's all worthy. Believe me, I think it is."


Via

6.11.13

COLETIVO



Vira e mexe, faço, mentalmente, curadoria de post. Isso acontece quando pessoas que não se conhecem escrevem, em algum lugar online, frases que se complementam, contrapõe, são iguais, se parecem… enfim, parece combinado, é uma coisa meio doida. E sei que não acontece só comigo. Hoje, lendo o texto do Emilio Fraia (o mesmo do post anterior), na parte em que ele fala do filme Mother, tive quase um déjà vu ao contrário. Fiquei pensando, pensando... onde é que eu tinha lido a ideia oposta? No facebook do Mario Amaya, alguns dias antes, sobre Blue is the Warmest Color.




"Apesar da dança excelente, esta cena de abertura pode sugerir que pela frente vamos esbarrar numa história lírica, existencial, morosa e/ou contemplativa. Nada mais errado. Mother é um filme praticamente de ação, thriller dos melhores (…)."




"Inexplicavelmente, ao ver o trailer senti a mesma pancada no peito que dá na protagonista ao virar o rosto para contemplar pela primeira vez aquela que será sua futura namorada. Eis um trailer que consegue comunicar o espírito intenso do filme, considerado por alguns como controverso (…)."

LEITMOTIVS



Leitmotiv

Algumas palavras a gente não pode conhecer muito tarde. Elas fazem falta.

Leitmotiv aparece neste post do Emilio Fraia no blog da Companhia das Letras. Duas vezes. Na primeira, eu pus no google.

Leitmotiv tem definição na dramaturgia, na música, na literatura, na psicanálise. Segundo a wikipedia.

Meia branca, fio de cabelo, caroço de ameixa. Emilio trocou a ordem quando escreveu o título.

E eu usei a mesma imagem que ele pra ilustrar meu post.


[...]

[leitmotiv]

5.11.13

"FROM 'WHAT'S NEW PUSSYCAT' (1965) TO 'TO ROME WITH LOVE' (2012) THERE'S PLENTY OF SEX TALK TO BE HAD"



Vídeo feito pelo Official Comedy e publicado ontem pelo IndieWire.

[making love. had har]

"IF I CAN'T DANCE IT'S NOT MY REVOLUTION"



Outro dia, fui fazer uma aula de yogadance. Quase não dá pra me ver mas eu tô ali, no vídeo acima (em dois frames, um de costas e um de frente), na prática linda da Fernanda Cunha no Gam Yoga.

A prática é realmente linda. E eu faria de novo, se rolasse regularmente. Mas mais pela yoga fluida. Que essa ainda não é minha dança.

[e eu acho que já encontrei mas há segredos não reveláveis até neste blog]

4.11.13

"…BUT, CATLIKE, HE WOULD SUDDENLY REAPPEAR, AND DISARM ME WITH SOME DELMORE SCHWARTZ LINE ABOUT LOVE OR COURAGE"



"I didn't understand his erratic behavior or the intensity of his moods, which shifted, like his speech patterns, from speedy to laconic. But I understood his devotion to poetry and the transporting quality of his performances. He had black eyes, black T-shirt, pale skin. He was curious, sometimes suspicious, a voracious reader, and a sonic explorer. An obscure guitar pedal was for him another kind of poem. He was our connection to the infamous air of the Factory. He made Edie Sedgwick dance. Andy Warhol whispered in his ear. Lou brought the sensibilities of art and literature into his music. He was our generation's New York poet, championing its misfits as Whitman had championed its workingman and Lorca its persecuted".

Aqui, a íntegra do texto lindo de Patti Smith sobre Lou Reed na New Yorker.

E aqui, a carta escrita no The East Hampton Star, de Long Island, pela mulher dele, que assina assim:

Laurie Anderson
his loving wife and eternal friend

[sigh]

30.10.13

É TÃO LINDO QUE DÓI



O vídeo inteiro é maravilhoso. Mas a partir do quinto minuto, como diz a descrição, two isolated individuals carnally collide.

E é foda.

29.10.13

AULA DE FLAMENCO COM MARIA MAGDALENA




No está mal chicas
Pero no te olvides que la técnica solamente os sirve para ponerla al servicio de vuestra arte

El palillo tienes que praticarlo sin mover la muñeca

El brazo debe subir suavemente y articulado

La cintura en su sitio

La cadera desprendida de la cintura y de las costillas

El pecho como las astas de un toro pero no rigido: suave, calentito

La cabeza dignificada

Y por favor, no muevas las manos. En ningún momento debes mover las manos

25.10.13

DREAM TEAM




Monja Coen, Prem Baba, Araquém Alcântara, Laís Bondanzky, vários outros y

Rubem Braga,

"Eu cheguei onde cheguei porque tudo o que planejei deu errado"

[ai, os caminhos descaminhados...]

[segue o seco. y bora]

24.10.13

O DELICADO TEMA QUE SÃO OS HOMENS

Imagem: cena do filme Memória da Memória


Troco emails sobre leitura com a Rita, minha cunhada. No último dela,

"Estou lendo Homens no Divã, indicação do seu irmão, para ampliar minha capacidade de compreensão de realidades múltiplas, mais especificamente do universo masculino. E sabe que eu tô gostando muito? Esse Serge Hefez é psiquiatra e psicanalista francês e escreve de uma maneira muito fluida e sutil sobre o delicado tema que, por incrível que pareça, são os homens.
E você, o que está lendo?"

Tenho lido livros essencialmente femininos.

E também acho que há delicadeza nos homens, sobretudo nos que se permitem femininos (temos, ambos os sexos, ambos os lados. Há que saber deixar fluir).

Será que o verdadeiro encontro não se dá quando se complementam o feminino de um homem e o masculino de uma mulher? Porque então os dois se deixaram ir além dos estereótipos.

...

[Há alguns meses, meu irmão me disse que estava fazendo um grupo de estudos do livro O que quer uma mulher, de Serge Andre]



16.10.13

TEMPO REI



Cheguei de viagem na madrugada de domingo para segunda e ele estava parado. Não pode ser a pilha, nova. Tampouco a máquina, trocada em janeiro. Tirei o relógio da parede da cozinha, acertei os ponteiros fazendo-o funcionar e deixei, cismada, em cima da bancada.

Pela manhã, busquei algumas vezes a hora no espaço vazio. O hábito. Mas a pressa logo me pôs na marcha do dia, automática. Vejo isso depois.

No fim da tarde, ele continuava parado, em novo horário. Mas não posso ver isso agora ou me atraso para a yoga, meu tempo sagrado.

A noite, que não traz consigo a calma preparatória pro descanso, mas deveria; à noite, veio a notícia que soou nova, mas não era:

- Vovô foi hospitalizado.

A máquina parada como prenúncio. Vovô era dono do relógio que hoje batia não-horas.

11.10.13

NUANCES [DE DAVID GROSSMAN NO RODA VIVA - 3]



Foi por causa de um texto de Noemi Jaffe, que li não sei onde, que comprei A Mulher Foge. Falando sobre outro assunto, ela contou da passagem do livro em que Orah e sua melhor amiga, Ada, inventam uma brincadeira, a de guardar palavras que acham que precisam ser protegidas do uso cotidiano - um almanaque de palavras protegidas. Qual não foi minha surpresa quando vi que Noemi era uma das entrevistadoras de David Grossman no Roda Viva. E, sem surpresa nenhuma, achei que ela fez uma das melhores perguntas a ele.

- Se você pudesse proteger algumas palavras, que palavras seriam essas?

"It will be hard for me to answer because it's in hebrew but it suddenly remind me of the protagonist of one of my other books who created for himself a hospital for a sick words, words that should be purified because they were overused and abused by others and these is what writers do, you know, we try to purify the words. So I won't give you certain words in hebrew because they will mean nothing to most people that are watching us now but I will just say what we need is really to be very careful about the words that we are using and not to collaborate with the manipulation, the usual manipulation of the every day language, of thick language that is not nuanced. I think that if we have more nuances to describe our situation we have more ways to approach life and to explore life. The more words you have, the more nuances... you just live your life with more and more depth and more intensity. This is the most of what I can say."

Em vez de colocar em negrito ali no bloco do texto, vou repetir, abaixo, as duas últimas frases da resposta de Grossman, porque elas merecem um espaço próprio no mar de palavras que é a vida. 

I think that if we have more nuances to describe our situation we have more ways to approach life and to explore life. 

The more words you have, the more nuances... you just live your life with more and more depth and more intensity. This is the most of what I can say. 


And it is enough, David.


[eu comecei o post anterior a este falando que este ano me trouxe à vida. e comecei este ano lendo, entre outros autores, Noemi, e seu então recém-lançado O que os Cegos Estão Sonhando?]

[fui procurar no dicionário todos os sentidos da palavra nuance, pra ter uma ideia de como ilustrar este post e, no Aulette, fui "convidada" a 1. Ver nuança. Quando isso aconteceu me dei conta dessa afinidade. Em mim, um gosto por etimologia. Em Noemi, uma "obsessão confessa". A ponto de ter dado origem a um outro livro seu, A Verdadeira História do Alfabeto]. 

CLARICE IS BACK. I'M BACK [DE DAVID GROSSMAN NO RODA VIVA - 2]



Este ano, que começou com uma grande mudança (voltei pro meu apartamento) saindo de uma outra grande mudança, que foi voltar de Londres, depois de dois anos e meio lá - e a adaptação a esse retorno durou 2012 inteiro, sem que eu me desse conta, e foi sofrida - antes mesmo do fim, posso dizer, antecipando a retrospectiva - este ano me trouxe de volta à vida.

Me trouxe de volta a vida.

E me trouxe de volta Clarice.

Porque eu não fui deliberadamente buscá-la. Não me lembro agora como - se foi um pensamento meu, se veio de fora (acho que sim) - mas lembrei do livro roubado. E escrevi sobre isso. E comprei o livro novamente. Então, como disse no post anterior, assisti, sábado passado, ao Roda Viva com David Grossman. E no último bloco, quase no fim...

"For me, Clarice Lispector was such a revelation. She came into my life only in the last six years when she first was translated to hebrew. And you know this joy when you discover a new writer - she was not new but for me she was new. You enter a new magnet field, you know, and suddenly all kind of parts of yourself are flying to air and suddenly you read reality totally different. I think she is a genius and I hope she is well recognized all over the world. No one writes like Clarice Lispector. No one has this chords of reality that touches and it is revealed to us readers. And it's always like that when you find a genius writer. Suddenly, the way you read reality is different. Suddenly new layers of reality are revealed."

No domingo, fui almoçar na casa dos meus pais. E me pus a procurar outros livros de Clarice - eu sabia que eles tinham existido na minha vida em outras épocas. Achei seis. E reintegrei a posse.

Mas ainda houve a semana (hoje é sexta) no meio dessa história. E a carta aberta de Benjamin Moser, biógrafo de Clarice, para Caetano.

Mas, serei honesta, não li uma linha dela estes dias. Nada que viesse de livros, na verdade. Li internet, li  o incrível discurso de Luiz Ruffato na abertura da feira de Frankfurt, li tudo (ou quase) do que foi publicado sobre a censura das biografias não-autorizadas, li blogs amigos, contos amigos, li o horroroso editorial do Estadão contra a política de transporte público em São Paulo, li a resposta aberta no blog Cidades para Pessoas, li o Xico Sá de hoje, que nem sempre gosto, mas que achei bem legal, porque o tema me é caro (sou totalmente contra essa pasteurização pubiana, o horror, o horror).

Mas não li uma página de um livro sequer.

E este era um post para falar de Clarice.

Não deixa de ser.


[na fala de Grossman, eu grifei uma frase que tem, também, a ver com Clarice. mas vai além. acho que essa frase define, pura e simplesmente, o êxtase do leitor, o gooooozo]

[e gozo aqui é apenas em sentido livro-sexual. nada psicanalítico, que fique claro!]


A foto que ilustra o post é desta matéria do Estadão

ENTRE ORAH E O MITO DO AMOR MATERNO [DE DAVID GROSSMAN NO RODA VIVA - 1]



Anteontem, mandei um texto e uns pensamentos meus por email pro meu irmão Luiz. Ele me respondeu contextualizando ambos e desfazendo uma pequena confusão minha: leia o texto "Psicologia das Massas e Análise do Eu", do Freud, que é uma bibliografia obrigatória pra esse assunto de que você quer falar e coloca no google, porque aí você acha artigos dos caras que citaram esse texto, ou seja, os autores contemporâneos que você quer. Mas sobre o texto que você me mandou - muito bom! - acho que pende mais pros críticos (escola de Frankfurt, Adorno, Foucault, Patto, mesmo Marx) do que pra psicanálise.

Como me faz falta leitura não-literária!, respondi.

Porque a troca é sensacional.

Olha só:

Sábado, assisti a um Roda Vida de 2009, de quando David Grossman veio pra cá divulgar A Mulher Foge. Que é um livro que amei, que queria que fosse além de suas 700 páginas, de tão bom. E, assistindo, fui transcrevendo trechos da fala de Grossman que me tocavam. Foram três (ou seja, três posts!). O primeiro, sobre a mulher e, ainda, sobre a maternidade, me fez lembrar, por contraposição, das palavras da Caterina Koltai (que é socióloga e psicanalista) num seminário chamado Além da Adoção (sugestão da Lau).

As ideias são diametralmente opostas? Ou elas se complementam?

David Grossman:

"I wanted a woman to be the main character of my book because I felt that maybe - this is, of course, a generalization, but I think that is something true in it - there is something more subversive regarding women when it comes to big systems, like the state, the government, even religion. All those big systems were created by men and they are rewarding men. And for a woman is more natural to ask, at a certain point, to ask the simple and inevitable question: how can it be that I'm more loyal to them - to the government, to the army, to the war - rather to my motherhood, rather to my child?
I once read a research that said that in the body of every woman who was pregnant still there are some cells of the fetus, of the embryo kept throughout her life. And maybe because of that their attitude is more reasonable, intuitive, more rational I always think that if god came to Sarah and not to Avran and suggested to sacrifice Isaac, Sarah would tell him: give me a break, please, leave me alone. Don't play me with such a terrible and cruel game."


"Eu gostei muito da fala da Maria Antonieta quando ela retoma o mito do amor materno. A primeira pessoa que eu ouvi falar disso, não sei se ela foi a primeira de fato, foi a Élizabeth Batinder. Ela falou sobre o mito do amor materno numa outra sociedade que não a nossa, a sociedade francesa, onde ela chama a atenção [para o fato de que] esse mito do amor materno nasce com a família burguesa. Eu acho que é importante a gente historicizar algumas coisas porque antes da família burguesa tal qual nós a conhecemos - porque a gente tem a impressão de que o mundo sempre foi como é esse que nós conhecemos, né? - e na verdade a família burguesa é muito recente; essa estrutura mamãe-papai-filhinhos, historicamente é muito recente e isso que criou esse mito do amor materno. 

Me parece que para qualquer discussão desse tipo é fundamental atravessar o mito. E não transformar o amor materno em algo instintivo. E saber que é uma construção cultural, que já dura um certo tempo, mas que é uma construção cultural como todo o resto. 

E aí o que nós fazemos com essa construção cultural hoje? Porque hoje nós estamos vivendo uma outra mudança, a meu ver, importante, talvez a gente não tenha se dado conta ainda que a criança está virando um produto raro. As famílias grandes vão acabando, o filho único é cada vez mais frequente, quanto mais rico o país menos se tem filhos, e evidente que essas poucas crianças que nascem têm que realizar todos os desejos dos pais. Quer dizer, elas vêm com uma carga insuportável, quer dizer, toda criança é um investimento narcísico

Um filho tem que ser sempre adotado. Aquele que sai da nossa barriga ele precisa ser tão adotado, de alguma maneira, quanto o outro. Esse pequeno estrangeiro, que chora, que grita, que fica vermelho, a gente precisa adotá-lo, precisa entender o que ele quer nos dizer e é assim que ele vai se humanizar."


[Orah é o nome da protagonista de A Mulher Foge. Da orelha do livro: Orah é a derivação feminina de "luz", a primeira entidade criada no Gênesis sobre o céu e a terra]

[sobre a construção e análise da burguesia eu, que vivo mais na praia da literatura - mesmo que só (e ainda) molhando os pés na beira - sugiro De Verdade, do Sandor Marai]

6.10.13

HEART ROOTS

sycamore (platanus occidentalis)

Do meu irmão Renê, há dois dias:

"No carro, indo pra casa, pergunto para o Theo sobre a escola, o que aprendeu. Ele, com preguiça de falar, diz que não lembra. Pergunto dos amigos. Quem são seus melhores amigos no momento? De quem gosta mais. Ele cita alguns nomes. Sinto falta de um, Pietra, que até pouco tempo atrás era sua namorada. Ele diz que ela não, que ela é ex-namorada, não é amiga. Dou risada. De repente, ele continua: pai, sabe quem é meu namorado? Penso, lá vem coisa. Será que é uma gracinha ou devo temer o Feliciano interferindo na vida do meu filho? Quem, Theo, finalmente pergunto.

[e aqui vale a pena pular uma linha, dar o respiro necessário ao pensamento]

Eu!, ele diz, orgulhoso da própria resposta. Eu sou meu próprio namorado. Sabe por que? Porque eu gosto muuuuito de mim. Então eu sou meu próprio namorado. E seguimos nosso caminho, eu rindo da estranha sabedoria do meu filho, seu misto de desapego e independência, enquanto ele continua empolgado: eu chamo meu namorado pra ir brincar, e ele vai. Pra ir no shopping, e ele vai. Pra pegar o helicóptero e invadir o esconderijo do coringa, e ele vai..."

...

São seis anos e meio de "estranha sabedoria", como diz meu irmão, ou de sabedoria infinita, como eu gostaria de chamar, como eu desejo que seja; sabedoria raiz de árvore, profunda, e tem uma que cabe tão bem o que quero expressar, mas só em inglês, infelizmente, e vá lá, heart roots, chamadas assim porque são várias raízes do tipo permanentes, que dão suporte ao peso da árvore.

Red Oaks (Q. rubra) and Sycamore (Platanus occidentalis) have thick heart roots.

So as Theo, I hope.

As for his other heart - which you can call the main one but if you got the whole idea it doesn't really matter - I can assure you is not only thick but big and soft and sweet.


[é de pequenino que se torce o pepino, diz a sabedoria popular. e eu, de grande, tô entendendo apenas agora -  e esse entendimento foi sincrônico com o theo - que só mesmo nossa alma pra nos preencher completamente. univitelina, siamesa, quase narcísica. e quando você faz as pazes com ela (theo ainda não teve tempo de brigar; talvez nunca brigue), é verdade, você pode chamá-la pra qualquer programa e ela vai. até pra pegar o helicóptero e invadir o esconderijo do coringa. ela vai, amarradona]

30.9.13

A MULHER DEVE TER PARTE COM O MAR [REBLOGGING]


O domingo ideal da Giovana, além das palavras acima, tem Quando Eu Era Sem Ninguém, do Tom Zé. Mas quando li o post dela foi outra música - e imediatamente - que veio à minha mente. Outras, na verdade. Porque foi um trecho de Zambelê, da Clara Nunes, que Anelis Assumpção colocou ali no finzinho de Mulher Segundo Meu Pai. Que é uma música absurda de linda do Itamar que, este ano, tem sido meu hino, meu mantra, minha trilha.

O meu domingo ideal de ontem teve sushi com cerveja na Liberdade. E Wilco depois. O que acabou deixando este post pela metade. Mas não significa que esteja sendo postado com um dia de atraso, mesmo hoje sendo segunda. Pelo contrário, se você analisar as circunstâncias. Veja bem, Giovana disse outro dia, pelo facebook, que ia começar um blog novo. Que só vim a saber qual era agorinha há pouco. Quer hora melhor pra vir aqui e terminar o que começou ontem antes da chuva?





os preferidos dos meus preferidos vai daqui diretamente pros meus preferidos aí do lado direito.

[e ela, como eu, usa colchetes pra se expressar, veja só]


29.9.13

QUEM SABE NAS PRÓXIMAS? [REBLOGGING]



Ainda não assisti a Tanta Água. Mas, por mais que o filme me emocione, já fui contaminada pela pelas palavras do José Geraldo Couto e não vou mais poder discernir quem, de fato, terá me tocado.

Quando ele escreve, no título, "a vida dos tempos mortos"; quando ele fala da "vida que poderia ter sido e que não foi" e, principalmente, quando ele finaliza e sinaliza: há o porvir.

"Tanta Água, de certa forma, confirma essa tendência [da capacidade dos uruguaios de captar e expressar a melancolia do tempo que passa] e, paradoxalmente, foge dela, ao centrar seu foco em Lucía, a adolescente que traz em si o germe da rebeldia e da transmutação. Ainda não foi nestas férias, mas, quem sabe nas próximas?"

26.9.13

O HOMEM DO SACO



Fiquei meia hora pensando se comprava zona azul, se haveria vaga na garagem do shiatsu, se deveria parar no prédio do trabalho, se iria ultrapassar o horário do rodízio, para, então, voltar para a primeira indagação e, assim, sucessivamente. Tudo porque, apesar de almoço, shiatsu e reunião de trabalho serem no mesmo quarteirão e, todos, a 20 minutos a pé de casa, eu não queria andar na rua. Já aconteceu antes. Eu simplesmente não estava a fim da exposição ao outro.

Meia hora passada, espiral de elucubrações não finda, eu volto à vida, coloco um casaco de moletom, uma calça saruel de malha, meia, tênis e saio a pé, claro. Dou dez passos e vejo um senhor que, ao que parece, está pedindo esmola na porta de uma casa. Passo por ele, que me pergunta: "Isso é uma calça ou um saco? É um saco!"

Imediatamente caio na gargalhada. Ele também.

Ainda rimos quando viro a esquina.

E eu que achava que sabia muito dessa coisa de me expor ao outro.

Imagem

25.9.13

MORTE XAMÂNICA



"Uma jornada espiritual em busca do autoconhecimento, da expansão da consciência e do amor"

Curta de Vjsuave, projeto de Ygor Marotta e Cecilia Soloaga

Mais aqui

23.9.13

DA (IN)COMPLETUDE

Lia, Nu, eu, Maria, Lau e Camilo na Benedito Calixto


Foi uma semana de muita troca e eu sabia que, em algum momento, ia surgir o desejo de escrever a respeito. Sábado, quando voltávamos pra casa, pouco antes de nos despedirmos, contei a elas sobre a frase um tanto rude e totalmente gratuita que uma amiga em comum, que elas nunca mais viram, me falou ano passado, num reencontro.

- A frase não foi gratuita, Laura disse. Isso é coisa de quem está ressentido com a própria vida, muito infeliz. E ao te ver e achar que você estava bem, descontou o ressentimento em você.

Eu e Nuria concordamos com isso e todas, depois, também com o fato do quanto esse comportamento, infelizmente, é recorrente. Então Laura lembrou do texto de um pensador português, que ela usou em seu doutorado em antropologia, que fala sobre a incompletude. De que quando uma sociedade/cultura se dá conta de que não é completa e de que a completude nunca será atingida - simplesmente porque não é possível - , ela aceita o outro, o estrangeiro, o diferente.

E como agora ela docemente confunde um pouco as línguas (trazendo o castelhano pro português), disse

- E acho que dá pra trasladar isso pras relações humanas. Quando uma pessoa não aceita sua incompletude surge o ressentimento e ela acaba atacando o outro, o que acredita que o outro tenha que ela não tem.

Sim.

E acho que a palavra chave, nessa questão, é aceitação mesmo. Quando uma pessoa não aceita suas tristezas e dificuldades seu olhar fica voltado (e apontado) para o outro como garantia de que se mantenha externo. Porque é dentro da gente que estão nossas verdades, nossas dores.

E

Por isso fazer terapia (não necessariamente psicanalítica) é tão importante, por isso sempre acreditei tanto, como quem toma partido de uma ideia que precisa ser defendida; difundida.
(É claro que as pessoas têm resistência. Quem é que quer entrar em contato com a própria dor e ainda ter de pagar por isso?)

E

Por mais que a espiritualidade (não me refiro a religiões dogmáticas) e algumas filosofias orientais, como o próprio yoga que pratico tanto, tenham como fundamento esse olhar interno pra resolução dos conflitos, acho que ainda falta. Porque é preciso elaborar esse conteúdo. E dificilmente uma pessoa consegue fazer isso sozinha.


Terapia, meditação, yoga, literatura, sol, solidão (ler é um ato solitário). Amigos que falam sua língua. E a incompletude vai ficando, paradoxalmente (já que é aí que reside a solução do mistério), muito mais completa.

Eu só agradeço.

20.9.13

"THE TIME IS GONE, THE SONG IS OVER, THOUGHT I'D SOMETHING MORE TO SAY"



A maior dificuldade, no entanto, é aceitarmos o envelhecimento, me disse a senhora de 76 anos.

Virei a cadeira em sua direção, para não mais conversarmos através do espelho. E disse saber do que ela estava falando.

Mas você é muito jovem pra sentir isso, disse uma outra. Isso só começou a me abalar depois dos 50.

Havia, dentro de mim, uma infinitude de respostas. Que saíram numa única frase, para dar por entendido o assunto.

Lido com angústias desde cedo.

...

"And you run and you run to catch up with the sun, but it's sinking
And racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you're older
Shorter of breath and one day closer to death

Every year is getting shorter, never seem to find the time..."


Imagem: Aron Wiesenfeld

15.9.13

NÓS



(escrito sábado de manhã)

Ontem à noite, angústia no limite por não conseguir escrever, fiz uma busca aleatória aqui no blog, atrás de nada específico mas, ao mesmo tempo, de alguma palavra minha escrita em Londres. Também fiquei tempos sem escrever em Londres, penso agora. Mas foi isso que procurei.

Ontem de manhã, angústia no limite por, mais uma vez, ser minha própria carrasca na vida, tive a sorte de um horário vagar no shiatsu. Enquanto eu chorava, em casa, recebi uma mensagem da massagista, Rita, pelo celular: a pessoa das 18h não virá, eita santo forte!

Rita é mais uma daquelas pessoas que vivia infeliz e com dinheiro no mundo corporativo e abandonou tudo pra fazer o que mandava sua essência. Com dor e dúvida, durante muitos anos financeiramente quebrada, seguiu em frente. O que despertou esse desejo nela e a manteve no caminho foi o aikido - hoje, ela é faixa marrom. Há quantos anos você treina, Rita? Deixa eu pensar... hmmm, desde 2006, há sete anos. Fomos e voltamos em assuntos relacionados a dores e bloqueios de energia no meu corpo quando me dei conta de que não havia nada que eu fizesse por tanto tempo. Começar e parar é uma constante na minha vida. Assim como os paradoxos. Você precisa perseverar, Isabela. Agora há pouco, quando disse que está pensando em voltar pra ashtanga porque não tem sentido evolução na hatha - será que se você continuar na hatha, com perseverança, justamente não vai entender que é isso, que o ponto é ficar, que é aí que se dá a mudança?

Click

E assim se desfez o primeiro de tantos nós que ela apertava no meu corpo. Claro que querer mudar era apenas sintoma. Era parar e, mais tarde, ter de voltar do começo, andando pra trás. Quase ou nada evoluir. Não crescer, minha especialidade.

Enquanto caminhava de volta pra casa, dolorida dos pés à cabeça, um outro nó começava a afrouxar. Não aceito mais a ideia de não escrever, eu pensava, com uma determinação (podemos chamar de perseverança?) que me fez passar por cima do asco que venho sentindo do computador e fazer a tal busca aleatória no blog. A página que se mostrou pra mim era cheia de posts. Um deles, Clareiras, escrito em Londres, em 12 de janeiro de 2011, era uma poesia (ruim) entrecortada por citações à Tamzin,  terapeuta corporal inglesa que trocou a vida corporativa pra fazer o que mandava sua essência. Com dor e dúvida.

"Pra minha sorte tem a Tamzin.
Onde quer que eu vá eu tenho um guru."

Não sei se foi antes ou depois de achar isso que me dei conta de que, sim, há algo que faço continuamente, já há alguns anos. Este blog. E a data de início, coincidência ou não, é 2006, sete anos atrás, como a da Rita e seu aikido.

Onde quer que eu vá eu tenho um guru.

E mais um nó no meu corpo se desfez.

13.9.13

DOS MEUS LIVROS ROUBADOS



Sabe aquele livro da Clarice que você me levou, entre outros? Seria bom que soubesse uma ou duas histórias sobre ele, talvez queira contá-las a alguém que pergunte o porquê de tantas frases sublinhadas e páginas marcadas.

Ele foi comprado por sugestão de uma psicanalista com quem fiz análise durante algum tempo. Jane é o nome dela e seu consultório ficava na rua Delfina, na Vila Madalena. Eu tinha de pegar a Purpurina pra voltar pra casa e uma vez uma velhinha de bengala bateu na janela do meu carro e pediu carona pra subir até a Fradique. Não sei se você sabe, mas a Purpurina é uma ladeira muito íngreme. E eu dei a carona.

Jane foi indicação de uma das grandes amigas que tenho na vida, a Laura. Hoje, ela mora na Argentina - ela é argentina - e trabalha como socióloga. A Laura, como eu, era doida por psicanálise e sua orientadora de mestrado é das sociais mas também psicanalista. Caterina Koltai é o nome dela e eu assistia às suas aulas com a Laura. Durante algum tempo, tudo o que conversávamos caía na psicanálise. Decorrência também das nossas angústias, sempre muitas, sempre compartilhadas na amizade.

Muito antes disso - desde muito cedo, na verdade -  comecei a escrever sobre minhas angústias. Enchia cadernos e folhas sulfite com medos, tristezas, dúvidas. Não tinha nenhuma preocupação formal, menos ainda estética - minha letra, que sempre foi bonita, saía quase um garrancho, como se desenhasse a dor que eu sentia. E quando soube disso, e quando leu algumas dessas coisas, Jane me sugeriu Clarice. Não seus romances, mas suas crônicas. "A Descoberta do Mundo", especificamente. Esse livro que você me levou, entre outros.

No tempo entre o início da minha amizade com a Laura e eu começar a fazer análise com a Jane, meu irmão Luiz, que hoje é psicanalista, se formou em psicologia na USP. A colação de grau dele foi demais, todo mundo feliz, uma vibe sem igual. Lembro de uma ou duas histórias: Luiz de tênis e terno numa época em que isso não era estiloso e sim inaceitável subiu no palco com o sapato dois números maior do cunhado. E o professor escolhido para ser orador da turma (que inclusive namorava uma aluna) citou Clarice, numa época em que isso não era clichê e sim literário.

"É Preciso Parar
Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu?
Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim - enfim, mas que medo - de mim mesma."

Eu, que de Clarice conhecia apenas romances, fiquei encantada. Agora, sim, Clarice falava diretamente comigo. Me desesperei pra guardar a citação. Na memória. E como era uma época sem google, foi somente anos depois - e sentindo um prazer sem igual - que encontrei novamente com ela. Foi nesse livro que você me levou. Entre outros.

23.7.13

MACABALEIA, MACABALÉA




"O Graciliano Ramos não escreve com adjetivos, ele escreve com palavras. Graciliano Ramos não escreve com advérbio, escreve com palavra. Entende?"

Eu assisti a esse vídeo quando estava lendo o "O Verão sem Homens", que reli em seguida, de tanto que gostei, de tão lindamente que fala do feminino, delicadamente, e esses advérbios me doem agora, e vai com dor, que não apago nem deixo de adjetivar o objeto de minha ainda adoração (por tantos motivos), mas,

o livro - a tradução - tem muito mais "inefável", "inexorável", "crepúsculo" do que "peixe", "pedra", "mato", "papagaio". E isso me incomodou a ponto de:

1. eu me sentir uma burra (ignorante, mais propriamente dizendo - ah, os advérbios...)
2. deixar um dicionário ali do lado e parar tudo para consultá-lo

Então que na segunda leitura passei a usar o lápis que sublinha frases que gosto também para deixar ali, do lado da palavra que foi feita mais pra brilhar, o significado, o que ela foi feita para dizer. Rasurando as páginas como em protesto.

Pra me entender melhor, é preciso assistir o vídeo acima. Que, obviamente, vale muito (e até mais) independentemente (rapaz, eu gosto mesmo de um advérbio) do meu post.

[e quisera eu ser escritora pra ter Graciliano Ramos no meu ombro, fiscalizando e, no meu caso, dizendo "mas você não vai mesmo colocar vírgula?"]

Principalmente porque - eu eu saio dos meus colchetes pra dizer isso - para a espiritualidade, quanto maior a sombra, maior a luz. E, se como fala Marcelino Freire, "Graciliano Ramos é uma sombra na vida da gente",

fiat lux.

Não deixe de ver o outro vídeo de Marcelino em homenagem a Graciliano, uma leitura de Vidas Secas, uma lindeza. Lindamente lindo.

Aí você até entende o título deste post.

[eu me traí e, relendo o post, coloquei algumas vírgulas, mesmo achando desnecessário, mesmo correndo o risco de errar - mas não foi justamente por isso, pelo risco?]

10.7.13

DRAMATIS PERSONAE


"Podia ser só por tanto que eu admiro o quanto ele sabe de tudo nessa vida que me interessa saber (mesmo quando eu só fique sabendo da existência da coisa quando ele me conta)",

escrevi, já faz tempo. E deletei do texto por não achar que encaixasse esteticamente nele, sabendo que o sentido estava de qualquer forma lá, diluído noutras palavras, noutras construções. O sentido é sempre esse.

Mesmo que mude o sujeito da minha adoração. E que nesse novo se insira desejo físico (que aqui não há perversão, não aqui).

Mas nada disso é possível. O amor é pessoal e intransferível. Principalmente o próprio.

[trying to turn electra upside down with no success whatsoever]

Ilustra daqui

3.7.13

SIMONE & DAWN



Não é o ponto central do filme, mas as relações femininas, as relações do feminino também tão em A Árvore. Ou eu vejo assim por uma tendência natural e cada vez mais acordada na minha vida.

Há temas dos quais a gente não pode fugir, eles nos são propostos ainda muito cedo. E são também um presente.

26.6.13

FÚRIA E LIBERTAÇÃO UTERINA


A resenha do Estadão:


"O livro é extremamente irônico, analisa a autora, que admite ter recorrido a formas literárias experimentais (hoje clássicas, como o fluxo de consciência joyciano e a narração não linear) para associar sua parábola de renascimento e reintegração social a um recurso formal que desintegra a literatura para que ela, paradoxalmente, possa sobreviver. A demolição da biologia evolucionista, por meio das críticas que Mia faz ao marido cientista, vem acompanhada de autocrítica, quando Siri toca em histeria feminina* e outros temas subjacentes.
Ela só não admite que seu evocativo e tragicômico livro tenha como heroína uma mulher cujas referências são exclusivamente masculinas, como assinalou um crítico, que sentiu falta de citações a Simone de Beauvoir e Margaret Fuller no lugar de luminares do mundo dos homens. "Não vejo razão para Mia não falar em Freud ou Kierkegaard", rebate a autora." 
[*tenho pensando muito em histeria, no conceito freudiano. e vai estrear Augustine logo mais]

24.6.13

PORQUE DÓI. MUITO


Antes de deitar na maca, lembrei de pensar na minha frase pessoal para momentos-limite (diretamente inspirada na frase de outra pessoa, admito): "eu tomava ayahuasca e fazia ashtanga, isto não pode ser mais difícil". E cantarolava mentalmente a parte emblemática de Comfortably Numb pra momentos de dor pontual com agulha "Ok, just a lilttle pin prick/ There'll be no more aaaaaaah..." acreditando residir (e morrer) na picada o problema.

Mas o que.

Punção é o ato contínuo de puncionar. Ad eternum, infinitum, non stop. É uma ação no gerúndio;  puncionando e puncionando e puncionando. Até que você não consiga obedecer a ordem de não engolir, não falar, não se contrair de tanta dor. E ter a sensação de que vai vomitar, mesmo tendo uma agulha enfiada no pescoço. Então, chorar convulsivamente quando acabar. Sem conseguir respirar. Em pânico.

Assim é um exame de punção de tireóide. Se te disserem que é diferente, não acredite.

You may feel a little sick.


Ilustra da Negahamburguer

24.5.13

CONJUGANDO O IMPERFEITO NO PRESENTE


Nesta e na imagem de cima, trabalhos lindos da minha amiga Iva Pinheiro

Esta semana eu fiquei emocionada. Depois um mês e meio de pausa nas artes manuais por falta de tempo, voltei à ativa. E pintei uma parede encrenqueira que, faz tempo, me faz mudar de ideia e refazê-la, sem resultado final (a encrenca é a parede, não meu senso crítico, que fique claro).

Depois da primeira demão, acho que a cor ficou forte demais. E decido passar uma mais clara por cima. Antes, penso: "que merda, devia ter usado a tinta mais clara desde o começo". Então aproveito que a parede é no banheiro e dou descarga na porra do senso crítico. Recomeço a pintar.

Dou uma, duas, três demãos de tinta. A mais clara ainda não cobre totalmente a mais escura, que transparece em forma de manchas. Olho uma vez, saio do banheiro. Volto, olho de novo.

O resultado é imperfeito.

Mas o trabalho está pronto.

Porque, de repente, sou invadida - de verdade, sensorialmente - pela certeza de que a imperfeição pode trazer beleza ao trabalho. Acrescentar. E olho pra parede desejando que as manchas fossem ainda mais fortes e marcadas.

Mas a ideia da imperfeição não é minha. Eu a aprendi com um amiga artista plástica, a Iva. Ela falou sobre isso algumas vezes - a última, diante de um criado-mudo vintage que eu pensava em reformar. Ela viu beleza na madeira riscada e envelhecida do tampo e disse que, se fosse dela, deixaria assim. Ouvi e mentalmente discordei. Claro.

Então pintei um móvel branco de farmácia de vermelho. E quando tirei a fita-crepe que protegia o vidro de respingos, saiu junto uma lasquinha de tinta. Não consertei na hora. E passei a observar aquele pedacinho descascado no móvel recém-pintado. No começo, eu pensava: preciso fazer esse retoque. Mas não fazia porque, sem me dar conta, fui achando aquilo bonito. Até que entendi que não ia pintar nunca.

O resultado era imperfeito.

Mas o trabalho estava pronto.

Foi aí que capitulei, penso agora, à ideia da imperfeição. Foi aí que me apaixonei pela liberdade de não precisar fazer minhas artes "sem defeito".

E esse foi o segundo passo da minha evolução criativa.

Obrigada, Iva.

[o primeiro foi entender que não é porque eu faço alguma arte que preciso trabalhar profissionalmente com isso. ou seja, o que eu faço não precisa ser bom a ponto de ter valor de mercado pra que eu continue fazendo. eu posso fazer pelo simples prazer de fazer. ]


4.4.13

AMOR DE CORES, LÍQUIDOS



O título não faz nenhuma referência ao Bauman. E eu não poria a palavra amor ali não tivesse meu irmão, outro dia, ao me mostrar uns desenhos absurdamente lindos que ele vem fazendo, me falado que desenhar tem sido uma de suas formas de sentir e expressar amor. Temos conversado muito sobre um amor constitucional que, acreditamos, em certa medida nos falta. E ido atrás dele, cada qual à sua maneira.

Mas, sem que saibamos, essas maneiras às vezes são as mesmas. Não por acaso. E ainda bem. Porque, conscientemente, eu não sabia que minhas expressões artísticas (transformei minha casa num ateliê com tudo o que isso implica - bagunça, mancha de tinta, pedaço de linha e rascunhos pra sempre inacabados) podem ser um caminho de, como ele disse, expressar e sentir amor. Constitucional. Fundamental. Amor.


31.3.13

MARILENA CHAUÍ E MEU ESPAÇO EM BRANCO



Já faz bastante tempo que a Kátia Mello postou esse vídeo no FB. Posto aqui agora porque:

1. Acabei de lembrar (quis postar na época mas esqueci)
2. Quero guardá-lo (esta é a função mais básica deste blog)
3. Pelo óbvio: a abominação à classe média paulistana.

E pelo não tão óbvio: não tenho tido a mínima vontade de escrever. E eu até postaria o que tenho feito no lugar mas só se desse pra bloquear uma pessoa de vir aqui e xeretar. Ô menina chata do cão. Não leio nem uma vírgula do que ela escreve. Mas ela, afe, não. Sai da minha aba? Para de me ler?
Agradecida!