24.5.13

CONJUGANDO O IMPERFEITO NO PRESENTE


Nesta e na imagem de cima, trabalhos lindos da minha amiga Iva Pinheiro

Esta semana eu fiquei emocionada. Depois um mês e meio de pausa nas artes manuais por falta de tempo, voltei à ativa. E pintei uma parede encrenqueira que, faz tempo, me faz mudar de ideia e refazê-la, sem resultado final (a encrenca é a parede, não meu senso crítico, que fique claro).

Depois da primeira demão, acho que a cor ficou forte demais. E decido passar uma mais clara por cima. Antes, penso: "que merda, devia ter usado a tinta mais clara desde o começo". Então aproveito que a parede é no banheiro e dou descarga na porra do senso crítico. Recomeço a pintar.

Dou uma, duas, três demãos de tinta. A mais clara ainda não cobre totalmente a mais escura, que transparece em forma de manchas. Olho uma vez, saio do banheiro. Volto, olho de novo.

O resultado é imperfeito.

Mas o trabalho está pronto.

Porque, de repente, sou invadida - de verdade, sensorialmente - pela certeza de que a imperfeição pode trazer beleza ao trabalho. Acrescentar. E olho pra parede desejando que as manchas fossem ainda mais fortes e marcadas.

Mas a ideia da imperfeição não é minha. Eu a aprendi com um amiga artista plástica, a Iva. Ela falou sobre isso algumas vezes - a última, diante de um criado-mudo vintage que eu pensava em reformar. Ela viu beleza na madeira riscada e envelhecida do tampo e disse que, se fosse dela, deixaria assim. Ouvi e mentalmente discordei. Claro.

Então pintei um móvel branco de farmácia de vermelho. E quando tirei a fita-crepe que protegia o vidro de respingos, saiu junto uma lasquinha de tinta. Não consertei na hora. E passei a observar aquele pedacinho descascado no móvel recém-pintado. No começo, eu pensava: preciso fazer esse retoque. Mas não fazia porque, sem me dar conta, fui achando aquilo bonito. Até que entendi que não ia pintar nunca.

O resultado era imperfeito.

Mas o trabalho estava pronto.

Foi aí que capitulei, penso agora, à ideia da imperfeição. Foi aí que me apaixonei pela liberdade de não precisar fazer minhas artes "sem defeito".

E esse foi o segundo passo da minha evolução criativa.

Obrigada, Iva.

[o primeiro foi entender que não é porque eu faço alguma arte que preciso trabalhar profissionalmente com isso. ou seja, o que eu faço não precisa ser bom a ponto de ter valor de mercado pra que eu continue fazendo. eu posso fazer pelo simples prazer de fazer. ]