30.9.13

A MULHER DEVE TER PARTE COM O MAR [REBLOGGING]


O domingo ideal da Giovana, além das palavras acima, tem Quando Eu Era Sem Ninguém, do Tom Zé. Mas quando li o post dela foi outra música - e imediatamente - que veio à minha mente. Outras, na verdade. Porque foi um trecho de Zambelê, da Clara Nunes, que Anelis Assumpção colocou ali no finzinho de Mulher Segundo Meu Pai. Que é uma música absurda de linda do Itamar que, este ano, tem sido meu hino, meu mantra, minha trilha.

O meu domingo ideal de ontem teve sushi com cerveja na Liberdade. E Wilco depois. O que acabou deixando este post pela metade. Mas não significa que esteja sendo postado com um dia de atraso, mesmo hoje sendo segunda. Pelo contrário, se você analisar as circunstâncias. Veja bem, Giovana disse outro dia, pelo facebook, que ia começar um blog novo. Que só vim a saber qual era agorinha há pouco. Quer hora melhor pra vir aqui e terminar o que começou ontem antes da chuva?





os preferidos dos meus preferidos vai daqui diretamente pros meus preferidos aí do lado direito.

[e ela, como eu, usa colchetes pra se expressar, veja só]


29.9.13

QUEM SABE NAS PRÓXIMAS? [REBLOGGING]



Ainda não assisti a Tanta Água. Mas, por mais que o filme me emocione, já fui contaminada pela pelas palavras do José Geraldo Couto e não vou mais poder discernir quem, de fato, terá me tocado.

Quando ele escreve, no título, "a vida dos tempos mortos"; quando ele fala da "vida que poderia ter sido e que não foi" e, principalmente, quando ele finaliza e sinaliza: há o porvir.

"Tanta Água, de certa forma, confirma essa tendência [da capacidade dos uruguaios de captar e expressar a melancolia do tempo que passa] e, paradoxalmente, foge dela, ao centrar seu foco em Lucía, a adolescente que traz em si o germe da rebeldia e da transmutação. Ainda não foi nestas férias, mas, quem sabe nas próximas?"

26.9.13

O HOMEM DO SACO



Fiquei meia hora pensando se comprava zona azul, se haveria vaga na garagem do shiatsu, se deveria parar no prédio do trabalho, se iria ultrapassar o horário do rodízio, para, então, voltar para a primeira indagação e, assim, sucessivamente. Tudo porque, apesar de almoço, shiatsu e reunião de trabalho serem no mesmo quarteirão e, todos, a 20 minutos a pé de casa, eu não queria andar na rua. Já aconteceu antes. Eu simplesmente não estava a fim da exposição ao outro.

Meia hora passada, espiral de elucubrações não finda, eu volto à vida, coloco um casaco de moletom, uma calça saruel de malha, meia, tênis e saio a pé, claro. Dou dez passos e vejo um senhor que, ao que parece, está pedindo esmola na porta de uma casa. Passo por ele, que me pergunta: "Isso é uma calça ou um saco? É um saco!"

Imediatamente caio na gargalhada. Ele também.

Ainda rimos quando viro a esquina.

E eu que achava que sabia muito dessa coisa de me expor ao outro.

Imagem

25.9.13

MORTE XAMÂNICA



"Uma jornada espiritual em busca do autoconhecimento, da expansão da consciência e do amor"

Curta de Vjsuave, projeto de Ygor Marotta e Cecilia Soloaga

Mais aqui

23.9.13

DA (IN)COMPLETUDE

Lia, Nu, eu, Maria, Lau e Camilo na Benedito Calixto


Foi uma semana de muita troca e eu sabia que, em algum momento, ia surgir o desejo de escrever a respeito. Sábado, quando voltávamos pra casa, pouco antes de nos despedirmos, contei a elas sobre a frase um tanto rude e totalmente gratuita que uma amiga em comum, que elas nunca mais viram, me falou ano passado, num reencontro.

- A frase não foi gratuita, Laura disse. Isso é coisa de quem está ressentido com a própria vida, muito infeliz. E ao te ver e achar que você estava bem, descontou o ressentimento em você.

Eu e Nuria concordamos com isso e todas, depois, também com o fato do quanto esse comportamento, infelizmente, é recorrente. Então Laura lembrou do texto de um pensador português, que ela usou em seu doutorado em antropologia, que fala sobre a incompletude. De que quando uma sociedade/cultura se dá conta de que não é completa e de que a completude nunca será atingida - simplesmente porque não é possível - , ela aceita o outro, o estrangeiro, o diferente.

E como agora ela docemente confunde um pouco as línguas (trazendo o castelhano pro português), disse

- E acho que dá pra trasladar isso pras relações humanas. Quando uma pessoa não aceita sua incompletude surge o ressentimento e ela acaba atacando o outro, o que acredita que o outro tenha que ela não tem.

Sim.

E acho que a palavra chave, nessa questão, é aceitação mesmo. Quando uma pessoa não aceita suas tristezas e dificuldades seu olhar fica voltado (e apontado) para o outro como garantia de que se mantenha externo. Porque é dentro da gente que estão nossas verdades, nossas dores.

E

Por isso fazer terapia (não necessariamente psicanalítica) é tão importante, por isso sempre acreditei tanto, como quem toma partido de uma ideia que precisa ser defendida; difundida.
(É claro que as pessoas têm resistência. Quem é que quer entrar em contato com a própria dor e ainda ter de pagar por isso?)

E

Por mais que a espiritualidade (não me refiro a religiões dogmáticas) e algumas filosofias orientais, como o próprio yoga que pratico tanto, tenham como fundamento esse olhar interno pra resolução dos conflitos, acho que ainda falta. Porque é preciso elaborar esse conteúdo. E dificilmente uma pessoa consegue fazer isso sozinha.


Terapia, meditação, yoga, literatura, sol, solidão (ler é um ato solitário). Amigos que falam sua língua. E a incompletude vai ficando, paradoxalmente (já que é aí que reside a solução do mistério), muito mais completa.

Eu só agradeço.

20.9.13

"THE TIME IS GONE, THE SONG IS OVER, THOUGHT I'D SOMETHING MORE TO SAY"



A maior dificuldade, no entanto, é aceitarmos o envelhecimento, me disse a senhora de 76 anos.

Virei a cadeira em sua direção, para não mais conversarmos através do espelho. E disse saber do que ela estava falando.

Mas você é muito jovem pra sentir isso, disse uma outra. Isso só começou a me abalar depois dos 50.

Havia, dentro de mim, uma infinitude de respostas. Que saíram numa única frase, para dar por entendido o assunto.

Lido com angústias desde cedo.

...

"And you run and you run to catch up with the sun, but it's sinking
And racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you're older
Shorter of breath and one day closer to death

Every year is getting shorter, never seem to find the time..."


Imagem: Aron Wiesenfeld

15.9.13

NÓS



(escrito sábado de manhã)

Ontem à noite, angústia no limite por não conseguir escrever, fiz uma busca aleatória aqui no blog, atrás de nada específico mas, ao mesmo tempo, de alguma palavra minha escrita em Londres. Também fiquei tempos sem escrever em Londres, penso agora. Mas foi isso que procurei.

Ontem de manhã, angústia no limite por, mais uma vez, ser minha própria carrasca na vida, tive a sorte de um horário vagar no shiatsu. Enquanto eu chorava, em casa, recebi uma mensagem da massagista, Rita, pelo celular: a pessoa das 18h não virá, eita santo forte!

Rita é mais uma daquelas pessoas que vivia infeliz e com dinheiro no mundo corporativo e abandonou tudo pra fazer o que mandava sua essência. Com dor e dúvida, durante muitos anos financeiramente quebrada, seguiu em frente. O que despertou esse desejo nela e a manteve no caminho foi o aikido - hoje, ela é faixa marrom. Há quantos anos você treina, Rita? Deixa eu pensar... hmmm, desde 2006, há sete anos. Fomos e voltamos em assuntos relacionados a dores e bloqueios de energia no meu corpo quando me dei conta de que não havia nada que eu fizesse por tanto tempo. Começar e parar é uma constante na minha vida. Assim como os paradoxos. Você precisa perseverar, Isabela. Agora há pouco, quando disse que está pensando em voltar pra ashtanga porque não tem sentido evolução na hatha - será que se você continuar na hatha, com perseverança, justamente não vai entender que é isso, que o ponto é ficar, que é aí que se dá a mudança?

Click

E assim se desfez o primeiro de tantos nós que ela apertava no meu corpo. Claro que querer mudar era apenas sintoma. Era parar e, mais tarde, ter de voltar do começo, andando pra trás. Quase ou nada evoluir. Não crescer, minha especialidade.

Enquanto caminhava de volta pra casa, dolorida dos pés à cabeça, um outro nó começava a afrouxar. Não aceito mais a ideia de não escrever, eu pensava, com uma determinação (podemos chamar de perseverança?) que me fez passar por cima do asco que venho sentindo do computador e fazer a tal busca aleatória no blog. A página que se mostrou pra mim era cheia de posts. Um deles, Clareiras, escrito em Londres, em 12 de janeiro de 2011, era uma poesia (ruim) entrecortada por citações à Tamzin,  terapeuta corporal inglesa que trocou a vida corporativa pra fazer o que mandava sua essência. Com dor e dúvida.

"Pra minha sorte tem a Tamzin.
Onde quer que eu vá eu tenho um guru."

Não sei se foi antes ou depois de achar isso que me dei conta de que, sim, há algo que faço continuamente, já há alguns anos. Este blog. E a data de início, coincidência ou não, é 2006, sete anos atrás, como a da Rita e seu aikido.

Onde quer que eu vá eu tenho um guru.

E mais um nó no meu corpo se desfez.

13.9.13

DOS MEUS LIVROS ROUBADOS



Sabe aquele livro da Clarice que você me levou, entre outros? Seria bom que soubesse uma ou duas histórias sobre ele, talvez queira contá-las a alguém que pergunte o porquê de tantas frases sublinhadas e páginas marcadas.

Ele foi comprado por sugestão de uma psicanalista com quem fiz análise durante algum tempo. Jane é o nome dela e seu consultório ficava na rua Delfina, na Vila Madalena. Eu tinha de pegar a Purpurina pra voltar pra casa e uma vez uma velhinha de bengala bateu na janela do meu carro e pediu carona pra subir até a Fradique. Não sei se você sabe, mas a Purpurina é uma ladeira muito íngreme. E eu dei a carona.

Jane foi indicação de uma das grandes amigas que tenho na vida, a Laura. Hoje, ela mora na Argentina - ela é argentina - e trabalha como socióloga. A Laura, como eu, era doida por psicanálise e sua orientadora de mestrado é das sociais mas também psicanalista. Caterina Koltai é o nome dela e eu assistia às suas aulas com a Laura. Durante algum tempo, tudo o que conversávamos caía na psicanálise. Decorrência também das nossas angústias, sempre muitas, sempre compartilhadas na amizade.

Muito antes disso - desde muito cedo, na verdade -  comecei a escrever sobre minhas angústias. Enchia cadernos e folhas sulfite com medos, tristezas, dúvidas. Não tinha nenhuma preocupação formal, menos ainda estética - minha letra, que sempre foi bonita, saía quase um garrancho, como se desenhasse a dor que eu sentia. E quando soube disso, e quando leu algumas dessas coisas, Jane me sugeriu Clarice. Não seus romances, mas suas crônicas. "A Descoberta do Mundo", especificamente. Esse livro que você me levou, entre outros.

No tempo entre o início da minha amizade com a Laura e eu começar a fazer análise com a Jane, meu irmão Luiz, que hoje é psicanalista, se formou em psicologia na USP. A colação de grau dele foi demais, todo mundo feliz, uma vibe sem igual. Lembro de uma ou duas histórias: Luiz de tênis e terno numa época em que isso não era estiloso e sim inaceitável subiu no palco com o sapato dois números maior do cunhado. E o professor escolhido para ser orador da turma (que inclusive namorava uma aluna) citou Clarice, numa época em que isso não era clichê e sim literário.

"É Preciso Parar
Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu?
Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim - enfim, mas que medo - de mim mesma."

Eu, que de Clarice conhecia apenas romances, fiquei encantada. Agora, sim, Clarice falava diretamente comigo. Me desesperei pra guardar a citação. Na memória. E como era uma época sem google, foi somente anos depois - e sentindo um prazer sem igual - que encontrei novamente com ela. Foi nesse livro que você me levou. Entre outros.