13.9.13

DOS MEUS LIVROS ROUBADOS



Sabe aquele livro da Clarice que você me levou, entre outros? Seria bom que soubesse uma ou duas histórias sobre ele, talvez queira contá-las a alguém que pergunte o porquê de tantas frases sublinhadas e páginas marcadas.

Ele foi comprado por sugestão de uma psicanalista com quem fiz análise durante algum tempo. Jane é o nome dela e seu consultório ficava na rua Delfina, na Vila Madalena. Eu tinha de pegar a Purpurina pra voltar pra casa e uma vez uma velhinha de bengala bateu na janela do meu carro e pediu carona pra subir até a Fradique. Não sei se você sabe, mas a Purpurina é uma ladeira muito íngreme. E eu dei a carona.

Jane foi indicação de uma das grandes amigas que tenho na vida, a Laura. Hoje, ela mora na Argentina - ela é argentina - e trabalha como socióloga. A Laura, como eu, era doida por psicanálise e sua orientadora de mestrado é das sociais mas também psicanalista. Caterina Koltai é o nome dela e eu assistia às suas aulas com a Laura. Durante algum tempo, tudo o que conversávamos caía na psicanálise. Decorrência também das nossas angústias, sempre muitas, sempre compartilhadas na amizade.

Muito antes disso - desde muito cedo, na verdade -  comecei a escrever sobre minhas angústias. Enchia cadernos e folhas sulfite com medos, tristezas, dúvidas. Não tinha nenhuma preocupação formal, menos ainda estética - minha letra, que sempre foi bonita, saía quase um garrancho, como se desenhasse a dor que eu sentia. E quando soube disso, e quando leu algumas dessas coisas, Jane me sugeriu Clarice. Não seus romances, mas suas crônicas. "A Descoberta do Mundo", especificamente. Esse livro que você me levou, entre outros.

No tempo entre o início da minha amizade com a Laura e eu começar a fazer análise com a Jane, meu irmão Luiz, que hoje é psicanalista, se formou em psicologia na USP. A colação de grau dele foi demais, todo mundo feliz, uma vibe sem igual. Lembro de uma ou duas histórias: Luiz de tênis e terno numa época em que isso não era estiloso e sim inaceitável subiu no palco com o sapato dois números maior do cunhado. E o professor escolhido para ser orador da turma (que inclusive namorava uma aluna) citou Clarice, numa época em que isso não era clichê e sim literário.

"É Preciso Parar
Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu?
Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim - enfim, mas que medo - de mim mesma."

Eu, que de Clarice conhecia apenas romances, fiquei encantada. Agora, sim, Clarice falava diretamente comigo. Me desesperei pra guardar a citação. Na memória. E como era uma época sem google, foi somente anos depois - e sentindo um prazer sem igual - que encontrei novamente com ela. Foi nesse livro que você me levou. Entre outros.

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