30.10.13

É TÃO LINDO QUE DÓI



O vídeo inteiro é maravilhoso. Mas a partir do quinto minuto, como diz a descrição, two isolated individuals carnally collide.

E é foda.

29.10.13

AULA DE FLAMENCO COM MARIA MAGDALENA




No está mal chicas
Pero no te olvides que la técnica solamente os sirve para ponerla al servicio de vuestra arte

El palillo tienes que praticarlo sin mover la muñeca

El brazo debe subir suavemente y articulado

La cintura en su sitio

La cadera desprendida de la cintura y de las costillas

El pecho como las astas de un toro pero no rigido: suave, calentito

La cabeza dignificada

Y por favor, no muevas las manos. En ningún momento debes mover las manos

25.10.13

DREAM TEAM




Monja Coen, Prem Baba, Araquém Alcântara, Laís Bondanzky, vários outros y

Rubem Braga,

"Eu cheguei onde cheguei porque tudo o que planejei deu errado"

[ai, os caminhos descaminhados...]

[segue o seco. y bora]

24.10.13

O DELICADO TEMA QUE SÃO OS HOMENS

Imagem: cena do filme Memória da Memória


Troco emails sobre leitura com a Rita, minha cunhada. No último dela,

"Estou lendo Homens no Divã, indicação do seu irmão, para ampliar minha capacidade de compreensão de realidades múltiplas, mais especificamente do universo masculino. E sabe que eu tô gostando muito? Esse Serge Hefez é psiquiatra e psicanalista francês e escreve de uma maneira muito fluida e sutil sobre o delicado tema que, por incrível que pareça, são os homens.
E você, o que está lendo?"

Tenho lido livros essencialmente femininos.

E também acho que há delicadeza nos homens, sobretudo nos que se permitem femininos (temos, ambos os sexos, ambos os lados. Há que saber deixar fluir).

Será que o verdadeiro encontro não se dá quando se complementam o feminino de um homem e o masculino de uma mulher? Porque então os dois se deixaram ir além dos estereótipos.

...

[Há alguns meses, meu irmão me disse que estava fazendo um grupo de estudos do livro O que quer uma mulher, de Serge Andre]



16.10.13

TEMPO REI



Cheguei de viagem na madrugada de domingo para segunda e ele estava parado. Não pode ser a pilha, nova. Tampouco a máquina, trocada em janeiro. Tirei o relógio da parede da cozinha, acertei os ponteiros fazendo-o funcionar e deixei, cismada, em cima da bancada.

Pela manhã, busquei algumas vezes a hora no espaço vazio. O hábito. Mas a pressa logo me pôs na marcha do dia, automática. Vejo isso depois.

No fim da tarde, ele continuava parado, em novo horário. Mas não posso ver isso agora ou me atraso para a yoga, meu tempo sagrado.

A noite, que não traz consigo a calma preparatória pro descanso, mas deveria; à noite, veio a notícia que soou nova, mas não era:

- Vovô foi hospitalizado.

A máquina parada como prenúncio. Vovô era dono do relógio que hoje batia não-horas.

11.10.13

NUANCES [DE DAVID GROSSMAN NO RODA VIVA - 3]



Foi por causa de um texto de Noemi Jaffe, que li não sei onde, que comprei A Mulher Foge. Falando sobre outro assunto, ela contou da passagem do livro em que Orah e sua melhor amiga, Ada, inventam uma brincadeira, a de guardar palavras que acham que precisam ser protegidas do uso cotidiano - um almanaque de palavras protegidas. Qual não foi minha surpresa quando vi que Noemi era uma das entrevistadoras de David Grossman no Roda Viva. E, sem surpresa nenhuma, achei que ela fez uma das melhores perguntas a ele.

- Se você pudesse proteger algumas palavras, que palavras seriam essas?

"It will be hard for me to answer because it's in hebrew but it suddenly remind me of the protagonist of one of my other books who created for himself a hospital for a sick words, words that should be purified because they were overused and abused by others and these is what writers do, you know, we try to purify the words. So I won't give you certain words in hebrew because they will mean nothing to most people that are watching us now but I will just say what we need is really to be very careful about the words that we are using and not to collaborate with the manipulation, the usual manipulation of the every day language, of thick language that is not nuanced. I think that if we have more nuances to describe our situation we have more ways to approach life and to explore life. The more words you have, the more nuances... you just live your life with more and more depth and more intensity. This is the most of what I can say."

Em vez de colocar em negrito ali no bloco do texto, vou repetir, abaixo, as duas últimas frases da resposta de Grossman, porque elas merecem um espaço próprio no mar de palavras que é a vida. 

I think that if we have more nuances to describe our situation we have more ways to approach life and to explore life. 

The more words you have, the more nuances... you just live your life with more and more depth and more intensity. This is the most of what I can say. 


And it is enough, David.


[eu comecei o post anterior a este falando que este ano me trouxe à vida. e comecei este ano lendo, entre outros autores, Noemi, e seu então recém-lançado O que os Cegos Estão Sonhando?]

[fui procurar no dicionário todos os sentidos da palavra nuance, pra ter uma ideia de como ilustrar este post e, no Aulette, fui "convidada" a 1. Ver nuança. Quando isso aconteceu me dei conta dessa afinidade. Em mim, um gosto por etimologia. Em Noemi, uma "obsessão confessa". A ponto de ter dado origem a um outro livro seu, A Verdadeira História do Alfabeto]. 

CLARICE IS BACK. I'M BACK [DE DAVID GROSSMAN NO RODA VIVA - 2]



Este ano, que começou com uma grande mudança (voltei pro meu apartamento) saindo de uma outra grande mudança, que foi voltar de Londres, depois de dois anos e meio lá - e a adaptação a esse retorno durou 2012 inteiro, sem que eu me desse conta, e foi sofrida - antes mesmo do fim, posso dizer, antecipando a retrospectiva - este ano me trouxe de volta à vida.

Me trouxe de volta a vida.

E me trouxe de volta Clarice.

Porque eu não fui deliberadamente buscá-la. Não me lembro agora como - se foi um pensamento meu, se veio de fora (acho que sim) - mas lembrei do livro roubado. E escrevi sobre isso. E comprei o livro novamente. Então, como disse no post anterior, assisti, sábado passado, ao Roda Viva com David Grossman. E no último bloco, quase no fim...

"For me, Clarice Lispector was such a revelation. She came into my life only in the last six years when she first was translated to hebrew. And you know this joy when you discover a new writer - she was not new but for me she was new. You enter a new magnet field, you know, and suddenly all kind of parts of yourself are flying to air and suddenly you read reality totally different. I think she is a genius and I hope she is well recognized all over the world. No one writes like Clarice Lispector. No one has this chords of reality that touches and it is revealed to us readers. And it's always like that when you find a genius writer. Suddenly, the way you read reality is different. Suddenly new layers of reality are revealed."

No domingo, fui almoçar na casa dos meus pais. E me pus a procurar outros livros de Clarice - eu sabia que eles tinham existido na minha vida em outras épocas. Achei seis. E reintegrei a posse.

Mas ainda houve a semana (hoje é sexta) no meio dessa história. E a carta aberta de Benjamin Moser, biógrafo de Clarice, para Caetano.

Mas, serei honesta, não li uma linha dela estes dias. Nada que viesse de livros, na verdade. Li internet, li  o incrível discurso de Luiz Ruffato na abertura da feira de Frankfurt, li tudo (ou quase) do que foi publicado sobre a censura das biografias não-autorizadas, li blogs amigos, contos amigos, li o horroroso editorial do Estadão contra a política de transporte público em São Paulo, li a resposta aberta no blog Cidades para Pessoas, li o Xico Sá de hoje, que nem sempre gosto, mas que achei bem legal, porque o tema me é caro (sou totalmente contra essa pasteurização pubiana, o horror, o horror).

Mas não li uma página de um livro sequer.

E este era um post para falar de Clarice.

Não deixa de ser.


[na fala de Grossman, eu grifei uma frase que tem, também, a ver com Clarice. mas vai além. acho que essa frase define, pura e simplesmente, o êxtase do leitor, o gooooozo]

[e gozo aqui é apenas em sentido livro-sexual. nada psicanalítico, que fique claro!]


A foto que ilustra o post é desta matéria do Estadão

ENTRE ORAH E O MITO DO AMOR MATERNO [DE DAVID GROSSMAN NO RODA VIVA - 1]



Anteontem, mandei um texto e uns pensamentos meus por email pro meu irmão Luiz. Ele me respondeu contextualizando ambos e desfazendo uma pequena confusão minha: leia o texto "Psicologia das Massas e Análise do Eu", do Freud, que é uma bibliografia obrigatória pra esse assunto de que você quer falar e coloca no google, porque aí você acha artigos dos caras que citaram esse texto, ou seja, os autores contemporâneos que você quer. Mas sobre o texto que você me mandou - muito bom! - acho que pende mais pros críticos (escola de Frankfurt, Adorno, Foucault, Patto, mesmo Marx) do que pra psicanálise.

Como me faz falta leitura não-literária!, respondi.

Porque a troca é sensacional.

Olha só:

Sábado, assisti a um Roda Vida de 2009, de quando David Grossman veio pra cá divulgar A Mulher Foge. Que é um livro que amei, que queria que fosse além de suas 700 páginas, de tão bom. E, assistindo, fui transcrevendo trechos da fala de Grossman que me tocavam. Foram três (ou seja, três posts!). O primeiro, sobre a mulher e, ainda, sobre a maternidade, me fez lembrar, por contraposição, das palavras da Caterina Koltai (que é socióloga e psicanalista) num seminário chamado Além da Adoção (sugestão da Lau).

As ideias são diametralmente opostas? Ou elas se complementam?

David Grossman:

"I wanted a woman to be the main character of my book because I felt that maybe - this is, of course, a generalization, but I think that is something true in it - there is something more subversive regarding women when it comes to big systems, like the state, the government, even religion. All those big systems were created by men and they are rewarding men. And for a woman is more natural to ask, at a certain point, to ask the simple and inevitable question: how can it be that I'm more loyal to them - to the government, to the army, to the war - rather to my motherhood, rather to my child?
I once read a research that said that in the body of every woman who was pregnant still there are some cells of the fetus, of the embryo kept throughout her life. And maybe because of that their attitude is more reasonable, intuitive, more rational I always think that if god came to Sarah and not to Avran and suggested to sacrifice Isaac, Sarah would tell him: give me a break, please, leave me alone. Don't play me with such a terrible and cruel game."


"Eu gostei muito da fala da Maria Antonieta quando ela retoma o mito do amor materno. A primeira pessoa que eu ouvi falar disso, não sei se ela foi a primeira de fato, foi a Élizabeth Batinder. Ela falou sobre o mito do amor materno numa outra sociedade que não a nossa, a sociedade francesa, onde ela chama a atenção [para o fato de que] esse mito do amor materno nasce com a família burguesa. Eu acho que é importante a gente historicizar algumas coisas porque antes da família burguesa tal qual nós a conhecemos - porque a gente tem a impressão de que o mundo sempre foi como é esse que nós conhecemos, né? - e na verdade a família burguesa é muito recente; essa estrutura mamãe-papai-filhinhos, historicamente é muito recente e isso que criou esse mito do amor materno. 

Me parece que para qualquer discussão desse tipo é fundamental atravessar o mito. E não transformar o amor materno em algo instintivo. E saber que é uma construção cultural, que já dura um certo tempo, mas que é uma construção cultural como todo o resto. 

E aí o que nós fazemos com essa construção cultural hoje? Porque hoje nós estamos vivendo uma outra mudança, a meu ver, importante, talvez a gente não tenha se dado conta ainda que a criança está virando um produto raro. As famílias grandes vão acabando, o filho único é cada vez mais frequente, quanto mais rico o país menos se tem filhos, e evidente que essas poucas crianças que nascem têm que realizar todos os desejos dos pais. Quer dizer, elas vêm com uma carga insuportável, quer dizer, toda criança é um investimento narcísico

Um filho tem que ser sempre adotado. Aquele que sai da nossa barriga ele precisa ser tão adotado, de alguma maneira, quanto o outro. Esse pequeno estrangeiro, que chora, que grita, que fica vermelho, a gente precisa adotá-lo, precisa entender o que ele quer nos dizer e é assim que ele vai se humanizar."


[Orah é o nome da protagonista de A Mulher Foge. Da orelha do livro: Orah é a derivação feminina de "luz", a primeira entidade criada no Gênesis sobre o céu e a terra]

[sobre a construção e análise da burguesia eu, que vivo mais na praia da literatura - mesmo que só (e ainda) molhando os pés na beira - sugiro De Verdade, do Sandor Marai]

6.10.13

HEART ROOTS

sycamore (platanus occidentalis)

Do meu irmão Renê, há dois dias:

"No carro, indo pra casa, pergunto para o Theo sobre a escola, o que aprendeu. Ele, com preguiça de falar, diz que não lembra. Pergunto dos amigos. Quem são seus melhores amigos no momento? De quem gosta mais. Ele cita alguns nomes. Sinto falta de um, Pietra, que até pouco tempo atrás era sua namorada. Ele diz que ela não, que ela é ex-namorada, não é amiga. Dou risada. De repente, ele continua: pai, sabe quem é meu namorado? Penso, lá vem coisa. Será que é uma gracinha ou devo temer o Feliciano interferindo na vida do meu filho? Quem, Theo, finalmente pergunto.

[e aqui vale a pena pular uma linha, dar o respiro necessário ao pensamento]

Eu!, ele diz, orgulhoso da própria resposta. Eu sou meu próprio namorado. Sabe por que? Porque eu gosto muuuuito de mim. Então eu sou meu próprio namorado. E seguimos nosso caminho, eu rindo da estranha sabedoria do meu filho, seu misto de desapego e independência, enquanto ele continua empolgado: eu chamo meu namorado pra ir brincar, e ele vai. Pra ir no shopping, e ele vai. Pra pegar o helicóptero e invadir o esconderijo do coringa, e ele vai..."

...

São seis anos e meio de "estranha sabedoria", como diz meu irmão, ou de sabedoria infinita, como eu gostaria de chamar, como eu desejo que seja; sabedoria raiz de árvore, profunda, e tem uma que cabe tão bem o que quero expressar, mas só em inglês, infelizmente, e vá lá, heart roots, chamadas assim porque são várias raízes do tipo permanentes, que dão suporte ao peso da árvore.

Red Oaks (Q. rubra) and Sycamore (Platanus occidentalis) have thick heart roots.

So as Theo, I hope.

As for his other heart - which you can call the main one but if you got the whole idea it doesn't really matter - I can assure you is not only thick but big and soft and sweet.


[é de pequenino que se torce o pepino, diz a sabedoria popular. e eu, de grande, tô entendendo apenas agora -  e esse entendimento foi sincrônico com o theo - que só mesmo nossa alma pra nos preencher completamente. univitelina, siamesa, quase narcísica. e quando você faz as pazes com ela (theo ainda não teve tempo de brigar; talvez nunca brigue), é verdade, você pode chamá-la pra qualquer programa e ela vai. até pra pegar o helicóptero e invadir o esconderijo do coringa. ela vai, amarradona]