11.10.13

ENTRE ORAH E O MITO DO AMOR MATERNO [DE DAVID GROSSMAN NO RODA VIVA - 1]



Anteontem, mandei um texto e uns pensamentos meus por email pro meu irmão Luiz. Ele me respondeu contextualizando ambos e desfazendo uma pequena confusão minha: leia o texto "Psicologia das Massas e Análise do Eu", do Freud, que é uma bibliografia obrigatória pra esse assunto de que você quer falar e coloca no google, porque aí você acha artigos dos caras que citaram esse texto, ou seja, os autores contemporâneos que você quer. Mas sobre o texto que você me mandou - muito bom! - acho que pende mais pros críticos (escola de Frankfurt, Adorno, Foucault, Patto, mesmo Marx) do que pra psicanálise.

Como me faz falta leitura não-literária!, respondi.

Porque a troca é sensacional.

Olha só:

Sábado, assisti a um Roda Vida de 2009, de quando David Grossman veio pra cá divulgar A Mulher Foge. Que é um livro que amei, que queria que fosse além de suas 700 páginas, de tão bom. E, assistindo, fui transcrevendo trechos da fala de Grossman que me tocavam. Foram três (ou seja, três posts!). O primeiro, sobre a mulher e, ainda, sobre a maternidade, me fez lembrar, por contraposição, das palavras da Caterina Koltai (que é socióloga e psicanalista) num seminário chamado Além da Adoção (sugestão da Lau).

As ideias são diametralmente opostas? Ou elas se complementam?

David Grossman:

"I wanted a woman to be the main character of my book because I felt that maybe - this is, of course, a generalization, but I think that is something true in it - there is something more subversive regarding women when it comes to big systems, like the state, the government, even religion. All those big systems were created by men and they are rewarding men. And for a woman is more natural to ask, at a certain point, to ask the simple and inevitable question: how can it be that I'm more loyal to them - to the government, to the army, to the war - rather to my motherhood, rather to my child?
I once read a research that said that in the body of every woman who was pregnant still there are some cells of the fetus, of the embryo kept throughout her life. And maybe because of that their attitude is more reasonable, intuitive, more rational I always think that if god came to Sarah and not to Avran and suggested to sacrifice Isaac, Sarah would tell him: give me a break, please, leave me alone. Don't play me with such a terrible and cruel game."


"Eu gostei muito da fala da Maria Antonieta quando ela retoma o mito do amor materno. A primeira pessoa que eu ouvi falar disso, não sei se ela foi a primeira de fato, foi a Élizabeth Batinder. Ela falou sobre o mito do amor materno numa outra sociedade que não a nossa, a sociedade francesa, onde ela chama a atenção [para o fato de que] esse mito do amor materno nasce com a família burguesa. Eu acho que é importante a gente historicizar algumas coisas porque antes da família burguesa tal qual nós a conhecemos - porque a gente tem a impressão de que o mundo sempre foi como é esse que nós conhecemos, né? - e na verdade a família burguesa é muito recente; essa estrutura mamãe-papai-filhinhos, historicamente é muito recente e isso que criou esse mito do amor materno. 

Me parece que para qualquer discussão desse tipo é fundamental atravessar o mito. E não transformar o amor materno em algo instintivo. E saber que é uma construção cultural, que já dura um certo tempo, mas que é uma construção cultural como todo o resto. 

E aí o que nós fazemos com essa construção cultural hoje? Porque hoje nós estamos vivendo uma outra mudança, a meu ver, importante, talvez a gente não tenha se dado conta ainda que a criança está virando um produto raro. As famílias grandes vão acabando, o filho único é cada vez mais frequente, quanto mais rico o país menos se tem filhos, e evidente que essas poucas crianças que nascem têm que realizar todos os desejos dos pais. Quer dizer, elas vêm com uma carga insuportável, quer dizer, toda criança é um investimento narcísico

Um filho tem que ser sempre adotado. Aquele que sai da nossa barriga ele precisa ser tão adotado, de alguma maneira, quanto o outro. Esse pequeno estrangeiro, que chora, que grita, que fica vermelho, a gente precisa adotá-lo, precisa entender o que ele quer nos dizer e é assim que ele vai se humanizar."


[Orah é o nome da protagonista de A Mulher Foge. Da orelha do livro: Orah é a derivação feminina de "luz", a primeira entidade criada no Gênesis sobre o céu e a terra]

[sobre a construção e análise da burguesia eu, que vivo mais na praia da literatura - mesmo que só (e ainda) molhando os pés na beira - sugiro De Verdade, do Sandor Marai]

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